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Criar (o) futuro (XXIII)

Paz e Gratidão. Duas palavras que parecem ausentes do vocabulário atual.

Não deixa de ser significativo que o Dia Internacional da Paz e o Dia Mundial da Gratidão se celebrem no mesmo dia, 21 de setembro.

Num presente que se revela cada vez mais incerto e inquietante, em que a guerra, a intolerância e a injustiça parecem ser o normal, é urgente eleger como prioridade a promoção da paz. E para esse grande desiderato, todos somos chamados a contribuir, agindo de forma positiva na construção de um mundo mais pacífico, fraterno e generoso.

Temos de deixar de viver como sonâmbulos, anestesiados pela rotina diária, e pensar séria e profundamente sobre o que queremos que seja o nosso presente e futuro.

E para pensar o futuro com serenidade, temos de estar conscientes do passado e do que se passa no presente, refletindo, de forma séria e assertiva, sobre a realidade política, económica e social. Pensar vem do latim pensare, que significa pesar razões, e é isso que todos, não só os decisores políticos, mas também os cidadãos, temos de fazer, para que se possa efetivamente construir, com realismo e solidariedade, um dia a dia mais coeso e sustentável.

Esperamos sempre que os grandes momentos sejam transformadores, sejam o ponto de partida para que tudo mude e fique melhor. Infelizmente, a história tem provado que nem sempre isso tem acontecido. O “vai ficar tudo bem” do período covid-19 afinal não se concretizou na sua plenitude. E um dos fatores que contribuíram para tal é a grande tendência de priorizar os interesses pessoais face ao bem comum.

É fulcral desenvolver o sentido comunitário, passar do “eu” para o “nós”, deixar de colocar o bem-estar individual à frente da sustentabilidade social.

Não tenhamos ilusões, não há soluções milagrosas, mas é indiscutível que as decisões políticas que definem o nosso futuro coletivo têm de ter um alcance abrangente não só em termos temporais, mas também no número de beneficiários das mesmas, para serem verdadeiramente reformadoras. E é também consensual que todo o progresso tem de ser centrado no cidadão, com soluções de compromisso duradouras.

E é preciso ser grato. Somos um povo com tendência para o queixume, para a crítica, para o pessimismo, mas temos de aprender a agradecer. A ver o tanto que somos como povo e o muito que ainda podemos ser. Há que combater a indiferença perante os outros, sair da preocupação somente com o nosso bem-estar, e nos mobilizarmos e agirmos face ao sofrimento e vulnerabilidade alheios. E embora haja uma responsabilidade acrescida por parte das entidades públicas, compete-nos também dar o nosso contributo, por mais ínfimo que seja. Não podemos ser felizes, nem nos sentirmos tranquilos, se ao nosso lado coexistem a pobreza e a falta de oportunidades.

É urgente reumanizar o mundo, numa dinâmica de transformação em que se torna imprescindível pensar fora da caixa, e ter a coragem democrática de fazer pontes e debater, com pluralismo e verdadeiro diálogo, os temas mais relevantes da atualidade, para que os consensos e compromissos nos permitam abrir com confiança a janela do futuro. E esse futuro risonho que se sonha é construído “dando asas” aos jovens para poderem superar os desafios, sem esquecer a solidariedade intergeracional.

E por falar em gratidão, nada mais justo do que, neste novo ano escolar, endereçar um sentido agradecimento aos professores. Como cidadã, como mãe, como filha de uma professora, a todos os professores, o meu muito obrigada!

São eles os obreiros do futuro de uma região e país, pois só através de uma educação com saber, valores e empatia é que os pilares da sociedade serão fortes e consistentes.

E que cada professor deixe uma marca indelével e seja recordado com saudade e carinho pelos seus alunos. Entre tantos professores que me marcaram, desde a antiga 1.ª classe até à Faculdade de Economia, destaco a minha professora primária, Bernardete Vieira. Com a sua forma competente e serena de ensinar, deu-me sólidas bases e conhecimentos que muito me ajudaram no meu percurso escolar.

Nunca podemos esquecer que a Educação continua a ser o eixo fundamental de uma sociedade mais justa e inclusiva, e que a escola é um espaço privilegiado para promoção da cidadania.

De acordo com um diagnóstico da Nova SBE (2021), estima-se que seja necessária a entrada no Ensino de quase 35 mil novos professores até 2030. Por sua vez, a CGA prevê que, já em 2023, se atinja o valor mais elevado de professores reformados na última década. Trata-se, assim, de um dossier que não pode ser adiado, têm de ser criadas as condições para maior atratividade da profissão e para a segurança e reconhecimento dos professores, de forma a não pôr em causa o futuro de tantas crianças e jovens. É preciso enfrentar os problemas ao nível do sistema e reforma da Educação, e não cairmos na falácia de que, com medidas paliativas, se resolvem os problemas. Não. É fundamental uma estratégia multidimensional, sintonizada com os anseios dos professores e necessidades dos alunos, que conduza à tão urgente transformação educativa, com um verdadeiro alcance de longo prazo, e não curto prazo, ou pior, prazo eleitoral. É um grande desafio, que exige resposta à altura para que se atinja um futuro partilhado, com qualidade de vida e esperança.

E só há um caminho: juntos! Sozinhos não vamos a lado nenhum, e juntos somos realmente mais fortes. Citando o Prémio Nobel da Paz de 2005, o diplomata e professor egípcio Mohamed ElBaradei: “Ou vencemos todos juntos, ou falhamos cada um por si”.

P.S.: Amanhã, é dia de votar. É um direito, mas também um dever cívico.

Nenhum futuro se constrói se nos alhearmos de decidir o que queremos para a nossa Região e para o nosso futuro.

A Madeira será aquilo que dela fizermos. E começa, desde já, através do nosso voto.