Salvador da Bahia
Salvador da Bahia parecia o luxo, um lugar fora do meu alcance e, mesmo assim, ouvi tudo o que contaram, ali, dando o peito a todos os maus sentimentos que a frustração traz
As datas redondas põem-me a remoer, são 30 anos de baile do liceu, quase tantos de entrada na faculdade, mais os 25 que entretanto passaram desde que os meus colegas de curso embarcaram para o Brasil numa viagem de finalistas de encher o olho e fazer inveja. Eu também me meti num avião nessas férias da Páscoa, mas vim dormir à casa do Laranjal sem água de coco ou fotografias nas praias dos trópicos. O orçamento não esticou até Salvador da Bahia, lugar que eu só conhecia dos livros do Jorge Amado, dos Capitães da Areia, lido de um fôlego nos meus 17 anos.
Os 50 contos que caíam todos os meses na conta do BPAcustavam horas de trabalho, chegavam suados dos dias que a minha mãe passava a bordar e dos “carunchos” que o pai arranjava aos sábados. E por aqui se percebe como tudo isto aconteceu numa outra vida, numa em que mil escudos faziam um conto e existia um banco chamado Banco Português do Atlântico. Nessa vida as pessoas como o meu pai faziam biscates aos sábados, eram os ‘carunchos’ que pagavam parte da minha vida em Lisboa. De maneira que, ciente da existência sacrificada que ficara no Laranjal, não me restou alternativa.
Fiz-me forte, engoli a frustração e cada resquício de inveja e despeito. As tias prometeram que ajudavam a pagar o vestido e os sapatos para o baile, que havia de ser no salão da Cruz Vermelha. Os amigos arrumaram a mala para o Brasil, eu enchi a minha de roupa para lavar, telefonei a avisar a hora e tive o meu tio Humberto à espera com o velho Opel Kadett que me trouxe a casa pela estrada velha. E como a má sorte nunca vem só essas férias da Páscoa foram cinzentas e frias, nem deu para ir ao Lido. Lembro-me que, num jeito conciliador, a minha mãe tentou dizer-me que não faltariam oportunidades, nem viagens.
É uma coisa que se diz, mas que dói aos 22 anos, quando o que conta é o momento que passa, o agora e naquele agora de há 25 anos eu não estava. O mais difícil foi esconder o despeito ao ver as fotografias e os bronzeados, os colares de contas e as histórias do hotel, da piscina, do pequeno almoço e as caipirinhas no bar do hotel. O hotel isto e aquilo e eu com os olhos a brilhar sem ser capaz de entender, pois nunca tinha estado num hotel. As pensões com casa de banho no fundo do corredor não contavam e era nessas que ficávamos quando íamos passear e não havia a casa de um amigo ou de um amigo de um amigo para ficar.
Salvador da Bahia parecia o luxo, um lugar fora do meu alcance e, mesmo assim, ouvi tudo o contaram, ali, dando o peito a todos os maus sentimentos que a frustração traz, fiz-me forte como na infância, quando o meu irmão corria atrás de mim com uma aranha nos dedos, viva e a espernear. Ao fim de duas semanas conformei-me e as conversas regressaram aos assuntos de todos os dias, às frequências, aos trabalhos, aos professores, aos filmes, a nós todos e eu fazia parte daquele “nós”, o grupo de amigos.
E desse grupo, composto por gente chegada de todos os cantos do país, eu tenho saudades, até daquelas duas semanas em que não se falou de outra coisa a não ser da viagem de finalistas, do mercado de artesanato, do óleo de dendê, do ensaio do olodum, de quem tinha bebido demais,quem tinha feito disparates e de como o português do Brasil podia complicar gestos simples como comprar cigarros. Tenho até saudades de ter sentido inveja por não ter ido, dos colares e do bronzeado que trouxeram e de como depois toda esta cobiça me envergonhou muito. A amizade merecia mais, fui a tempo de compreender isso.