Um novelo de fios de luz

Eu, do Laranjal, tenho memórias que se confundem com o que está à vista: a periferia da cidade com casas onde antes havia vinha e bananeiras.

11 Mar 2018 / 02:00 H.

A casa está velha, os dias de chuva fizeram crescer musgo no telhado e nos degraus da entrada. Vejo-a no meio da fazenda quando o autocarro faz a curva e dou por mim a pensar que sei tão pouco do lugar onde cresci. Os vizinhos morreram ou seguiram rumo, não conheço os que chegaram, há quase 20 anos que venho só de visita e sei o que me contam as tias. Histórias de quem casou, de quem teve filhos, de quem já não mora por ali e quem ficou, mudou a casa e assentou arraiais pelos arredores.

Eu, do Laranjal, tenho memórias que se confundem com o que está à vista: a periferia da cidade com casas onde antes havia vinha e bananeiras, carros estacionados na beira do caminho e, por cima, um novelo de fios de luz que se atravessa na paisagem para onde quer que se olhe. Longe vão os dias em que descia pela entrada para partilhar algum segredo com a minha tia Teresa, que era minha madrinha do crisma e tinha um coração bom, dos que ouvem muito e julgam pouco. E por isso sabia todos os nossos segredos.

O tempo das cumplicidades passou, mas é à luz desses anos que olho para o caminho, que vejo as ruínas onde o meu bisavô nasceu e que penso nos domingos à tarde na varanda da tia Alice, para ver quem passava na estrada quando o filme da sessão da tarde não era do bons ou estava a dar uma daquelas intermináveis transmissões de patinagem artística ou do torneio das cinco nações em râguebi na televisão. O meu tio Humberto ouvia o relato da bola no rádio a pilhas na sonolência da tarde e a minha prima Ana mostrava-me os perfumes, a maquilhagem e aquelas roupas bonitas das lojas caras da cidade.

A tia Teresa guardava os segredos e a Ana, no fulgor dos 30 anos, dividia os truques da vaidade feminina, explicava como se usava o perfume e pintava os olhos tal e qual como nas revistas francesas que às vezes comprava. Eu projectava-me no futuro, tão magra como ela, com roupas elegantes, seguindo as regras: riscas com flores não, roxo e amarelo sim, fazia contraste. Os sapatos de salto agulha, as malas em couro de boa qualidade e os óculos de sol que lhe davam um quê de actriz de cinema francês. O quarto da minha prima Ana era uma escola de bom gosto, de maneiras e eu tinha tanta pena das calças não me passarem dos joelhos.

À noitinha, descia pelo caminho com os restos de perfume e sonhava com o dia em que seria assim esguia e misteriosa, de olhos pintados e óculos sol, em cima de saltos e com uma mala ao ombro, tão elegante como se podia e devia ser. A imagem acalentava-me a esperança, era como fugir do meu quarto, da casa e do quintal, para um lugar diferente daquela periferia de campos e galinheiros, daquela adolescência triste e solitária, onde nem a natureza tinha ajudado ao dar-me ancas largas e demasiada fome.

Eu devia intuir já que nunca seria magra, nem misteriosa, que não fazia parte da minha essência qualquer semelhança com artistas de cinema e que a fome nunca me abandonaria, mas aquelas tardes com a minha prima Ana definiram-me. Gosto de sapatos, malas e roupas e sou vaidosa e foi ela que me ensinou a ser, como me ensinou a ler e a escrever no Verão antes de entrar para a primeira classe. E eu tenho saudades, tenho ainda mais em Março, o mês em que fazia anos, mas tudo isto que sinto e penso é memória. A memória do Laranjal antes deste novelo de fios de luz se atravessar na paisagem para onde quer que se olhe.

Marta Caires

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