Acabem com o subsídio de mobilidade

09 Mar 2018 / 02:00 H.

    Uma boa parte da sociedade tem andado ancorada na ideia de que o “princípio da continuidade territorial” impõe ao Estado o pagamento de um subsídio aos Madeirenses que queiram deslocar-se ao Continente. Evidência tal que tem de haver um subsídio, ponto final. A discussão tem andado centrada no seu “aperfeiçoamento”.

    O que não vejo ninguém discutir é a afronta que este subsídio, ou qualquer outro, significa para o “mercado”, que podia (e devia!) funcionar livremente.

    O que pretendo aqui demonstrar é que o “mercado” é muito mais amigo da Madeira e dos Madeirenses do que qualquer espécie de “subsídio”. Este só serve para desvirtuar a lei da oferta e da procura e, por conseguinte, para inflacionar os preços de uma forma artificial.

    Todos sabemos o absurdo que é pagar mais por uma viagem Funchal-Lisboa do que por uma viagem Funchal-Madrid (com escala em Lisboa); ou pagar menos por uma viagem Lisboa-Moscovo. O próprio DIÁRIO, em tempos, fez esse género de simulações e apresentou exemplos absolutamente ilógicos.

    Convenhamos: este subsídio foi criado com o único objectivo de injectar dinheiro na falida TAP (com as outras companhias a esfregarem as mãos, porque recebem por tabela). É um mecanismo que desvirtua totalmente as leis do mercado.

    Façamos um exercício simples: o leitor é dono de uma empresa que vende arroz. Sabendo da existência de um subsídio que é concedido pelo Estado para ajudar na compra deste produto, é natural que o leitor venda o quilo de arroz ao preço mais elevado possível. O consumidor vai comprar na mesma, porque “depois recebe o subsídio”.

    Ora, a ausência de qualquer subsídio beneficia os residentes e o destino Madeira, que teria preços muito mais baixos e competitivos em todas as épocas do ano (sim, porque o Turismo é fortemente prejudicado).

    E que dizer daqueles que não são residentes, mas têm cá toda a sua família (emigrantes e madeirenses que constituíram família no Continente)? É frequente queixarem-se que não podem vir à Região (já nem falo no Natal) porque as passagens são muito caras (uma passagem ainda se consegue, mas comprar para o agregado familiar e gastar 1200€/1500€ para cá vir, cuidado...).

    Para que fique mais claro: as passagens no Natal podem chegar ao extraordinário preço de 600€, por exemplo. O estudante acaba por pagar, no fim do dia, 265€ (65€ + 200€ que excedem o tecto de 400€). Ora, se é para pagar esse valor, que seja num mercado livre, sem subsídios nem tangas. Ou vão dizer-me que ninguém se apercebeu do aumento brutal dos preços das viagens que o estabelecimento deste subsídio trouxe - prejudica, como já referi, os residentes, madeirenses não residentes e o Turismo; numa palavra: todos.

    As companhias aéreas estão a fazer o seu negócio; o leitor colocado numa situação idêntica faria exactamente o mesmo (como já demonstrei anteriormente). Basta perguntar: se não houvesse subsídio e o preço da passagem fosse 600€/800€, alguém comprava essa viagem? Aí têm a resposta. Se não houvesse subsídio, as viagens nunca chegariam a tais preços. Ajustavam-se à lei da oferta e da procura e uma companhia Low Cost podia, efectivamente, praticar preços Low Cost. E agora andam a discutir os charters da Páscoa; outra pior... Enfim:

    1. O “mercado” é mais amigo daquele princípio que todos gostamos de ouvir (e enchemos o peito quando o pronunciamos), o da continuidade territorial, do que qualquer “subsídio de mobilidade”.

    2. O “mercado” permite a existência de preços competitivos em todas as alturas do ano.

    3. A discussão em torno de qualquer outro subsídio não resolve o problema dos preços exorbitantes que se praticam na rota Madeira.

    4. Acabem com o “subsídio de mobilidade”.

    Nuno Andrade

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