Estamos todos com pressa para chegar a lado nenhum…
Escolhemos viver o nosso dia a dia de forma estranha. Estamos sempre com pressa. Pressa para acordar, para sair de casa, pressa para chegar ao trabalho, para responder a uma mensagem, para terminar uma tarefa, para chegar a casa e ao tão merecido fim da semana.
E quando finalmente chega, muitas vezes estamos demasiado cansados para aproveitar o tempo que tanto esperámos.
Vivemos a correr, mas raramente paramos para perguntar para onde estamos a ir.
Na Madeira, esta contradição talvez seja ainda mais evidente. Vivemos num lugar que, visto de fora e pelos de fora, parece convidar à calma. O mar, as montanhas, os trilhos, o clima, as paisagens.
Há quem atravesse vários quilómetros para passar alguns dias precisamente à procura daquilo que nós temos à nossa porta, no entanto, muitos de nós passamos os dias sem sequer reparar.
Passamos por uma paisagem extraordinária a caminho do trabalho e estamos preocupados com o trânsito ou com a hora de chegada ao destino. Sentamo-nos num bar ou restaurante com amigos e, a determinada altura, todos temos um telemóvel na mão. Chegamos a casa cansados e dizemos que não temos tempo para conversar. Adiamos aquele café com alguém de quem gostamos porque “um dia destes combinamos”.
Esse dia, curiosamente, parece nunca chegar. Talvez um dos grandes problemas seja termos confundido movimento com progresso. Se estamos ocupados, sentimos que estamos a fazer alguma coisa. Se temos a agenda cheia, sentimos que somos importantes. Se respondemos rapidamente, achamos que estamos disponíveis. Se conseguimos fazer dez coisas ao mesmo tempo, consideramo-nos eficientes.
Mas estar ocupado não significa necessariamente estar a viver.
Há pessoas que passam anos a trabalhar para poderem ter mais tempo e, quando finalmente têm esse tempo, já não sabem muito bem o que fazer com ele.
Hoje temos ferramentas que deveriam tornar a nossa
vida mais simples, mas conseguimos estar mais cansados do que nunca. Podemos falar instantaneamente com alguém que está do outro lado do mundo, mas muitas vezes não temos cinco minutos para ouvir verdadeiramente quem está sentado ao nosso lado.
Estamos permanentemente ligados e, ao mesmo tempo, cada vez mais ausentes e desligados!
Julgo que seja importante recuperar coisas que parecem pequenas. Um café sem olhar para o relógio. Uma conversa que não tenha um propósito. Um almoço demorado. Um passeio sem destino. Uma tarde em que não precisamos de produzir absolutamente nada.
Isto parece pouco.
Mas talvez seja precisamente esse o problema, fomos ensinados a acreditar que tudo aquilo que não produz, não rende ou não nos aproxima de algum objetivo é tempo perdido. Não é.
Há tempo que não serve para produzir. Serve para viver.
Serve para estar com os filhos enquanto eles ainda querem contar-nos tudo. Para visitar os pais enquanto ainda podemos ouvir as suas histórias pela décima vez. Para estar com os amigos sem precisar de fotografar o momento. Para reparar que alguém que vemos todos os dias não parece bem. Para olhar para o mar sem pensar em mais nada.
Porque o tempo não nos é devolvido e está em contagem decrescente. E talvez um dia percebamos que passámos demasiado tempo a tentar chegar depressa a um lugar onde, afinal, nem queríamos estar.
Não precisamos de abandonar as nossas ambições, deixar de trabalhar ou fingir que os problemas não existem. Precisamos apenas de recuperar a capacidade de distinguir aquilo que é urgente daquilo que é realmente importante.
Nem todas as mensagens precisam de resposta imediata. Nem todos os dias precisam de ser produtivos. Nem todos os momentos de silêncio precisam de ser preenchidos.
Às vezes, não fazer nada é precisamente fazer o que mais importa, estar presente.
A nossa terra é um destino que tantas pessoas procuram para descansar e talvez esteja na altura de nós próprios nos lembrarmos de descansar nela.
De olhar mais.
De ouvir mais.
De conversar mais.
De correr um pouco menos.
Estamos todos com pressa para chegar a lado nenhum.
Talvez esteja na hora de parar, nem que seja por alguns minutos, e perceber que, afinal, talvez seja precisamente aqui que deveríamos estar.