O lugar dos políticos na responsabilidade social
É preciso mais prevenção, mais literacia sobre os temas da sexualidade e do planeamento da gravidez
Falar sobre o aborto não é apenas emitir uma opinião daquelas que se pode expressar através de um gosto ou não gosto, atualmente tão vulgar em qualquer rede social. Falar sobre o tema exige pensar, ler, analisar, ter pensamento critico que é diferente de criticar.
O corpo de uma mulher contém a possibilidade de criar novas vidas e assim contribuir para a continuidade da espécie humana. Este privilégio, que não se reduz há raça humana, é uma construção, uma possibilidade biológica, nem sempre possível de concretizar. Até aqui não se levantam grandes dúvidas, “a natureza, ou Deus assim decidiu”.
Acontece que a mulher é mais do que uma fêmea e muito mais do que o seu corpo, é uma pessoa com capacidade de escolha e decisão sobre a sua vida e a sua história. Com exceção das crianças ou pessoas com incapacidades cognitivas que as impeça de decidir, o grande privilégio e conquista da raça humana é a capacidade de pensar e decidir, o livre arbítrio.
Quando ouço pessoas com responsabilidade política e/ou social tecer comentários simplistas e banais sobre áreas tão complexas, fico a pensar qual o propósito ou intenção.
Vivemos um tempo de retrocessos, no plano social, humanitário, político. Muito do que se estudou, aprendeu, evoluiu, perdeu valor, consistência, perdeu lugar. Há momentos em que sinto que vale tudo, ainda que o tudo seja nada, ou pior ainda um retrocesso perigoso.
O aborto e as atuais leis, resultaram de muito estudo, reflexão, opiniões contraditórias, referendos, tomadas de decisão políticas, coragem e evolução.
A mudança de paradigma não significa a banalização do ato, mas sim o respeito na decisão de cada mulher ou casal em sentir segurança na conceção de uma nova vida. Há circunstâncias óbvias que determinam essa decisão e outras de carácter mais pessoal que não são meros atos de egoísmo, mas mais do que isso a tomada de consciência do significado e da responsabilidade de ser mãe e pai para o resto da vida.
É preciso mais prevenção, mais literacia sobre os temas da sexualidade e do planeamento da gravidez, mais acompanhamento nas situações de crise, no namoro, nos jovens casais. Mais técnicos especializados, nas escolas, nos serviços de saúde, na comunidade, mais atenção, mais foco, melhores políticas sociais.
É por faltar tanto do essencial que o aborto ainda é um tema tão presente na sociedade em que vivemos. Querer alterar comportamentos tão complexos e fraturantes, na vida de tantas famílias e pessoas, sem olhar a realidade e perceber o lugar onde vivemos, exigindo políticas que melhorem de facto a vida das pessoas, é inútil e pequenino.
Há que ser sério, consistente, informado e humano, quando queremos partilhar opiniões e trazer ao debate questões essenciais para a vida comunitária. Se todos deveríamos ter esta preocupação e noção da corresponsabilidade, face ao que partilhamos, os políticos são por natureza agentes de vinculação de informação com uma responsabilidade acrescida. A distração face a esta corresponsabilidade, e a ideia de que cada um pode dizer o que pensa levando os seus “seguidores” a acompanhar as suas posições pessoais, é a negação e descredibilização da função e do papel social dos agentes políticos.