Entre extremos, falta-nos o essencial
Vivemos numa época em que parece obrigatório escolher um extremo. Ou se adere ao chamado “wokismo”, com os seus excessos, ou se embarca num pseudo-conservadorismo que transforma convicções pessoais em regras para todos. Não me revejo em nenhum deles. Posso ser pessoalmente contra o aborto e, ao mesmo tempo, defender a sua descriminalização. Uma coisa é a minha consciência; outra é o Direito e a liberdade de quem não partilha das minhas convicções. Da mesma forma, sou favorável à educação sexual, mas isso não significa aceitar sem discussão qualquer construção ideológica sobre género, muito menos confundir educação com promoção de comportamentos. Entre o moralismo e a ausência de limites há um espaço enorme onde ainda cabe o bom senso.
Quanto às pessoas trans, para mim o princípio é simples: são pessoas como eu e como qualquer outra. Devem ter os mesmos direitos e os mesmos deveres, acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à habitação, ao crédito, ao casamento, à adoção e a uma vida sem humilhação. Igualdade, porém, não obriga a negar todas as diferenças. No desporto, por exemplo, se determinadas características biológicas têm impacto objetivo na competição, discutir categorias próprias não tem de significar discriminação. Pode, precisamente, significar justiça competitiva. O erro começa quando qualquer dúvida é imediatamente transformada em ódio, ou quando qualquer diferença é utilizada como pretexto para retirar dignidade a alguém.
Também me custa ouvir quem se proclama conservador defender, por exemplo, a proibição absoluta do aborto mesmo perante uma gravidez resultante de violação. Isso não é, a meu ver, conservadorismo: é insensibilidade transformada em dogma. Da mesma forma, não aceito que se generalize sobre religiões, como se todos os que professam determinada fé fossem inimigos da liberdade ou da diferença. O princípio deveria ser muito mais simples: respeito quem me respeita. Ninguém pode exigir tolerância para si enquanto recusa tolerar o outro. O meu direito acaba onde começa o direito do próximo, mas o direito do próximo também acaba onde começa o meu. A tolerância sem reciprocidade deixa rapidamente de ser tolerância e passa a ser submissão.
O problema é que este debate já não parece procurar soluções. Procura vencedores, derrotados, indignação e audiências. Todos os dias vemos uma direita que se apresenta como salvadora dos excessos do wokismo e uma esquerda que, demasiadas vezes, trata qualquer posição conservadora como sinal de obscurantismo. Uns e outros têm excessos; uns e outros, por vezes, têm razão. O que não muda é a máquina do conflito. O sangue dá audiências, o ódio produz cliques e a desinformação vive de frases de dez segundos. Entretanto, o amor ficou na prateleira, o respeito numa gaveta e a solidariedade quase desapareceu do discurso público. Talvez nos fizesse bem perceber que uma sociedade livre não exige que todos pensemos da mesma maneira. Exige apenas algo aparentemente mais difícil: que consigamos viver juntos, diferentes, livres e iguais em dignidade. E isso nenhuma das partes parece estar disposta a cultivar.