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Milagre, milagre, já não há falta de professores!

O mês de agosto costuma ser mais propício a banhos e ao descanso do que a milagres. No entanto, este ano, em pleno mês de férias dos professores, deu-se um milagre inesperado na RAM: de um momento para o outro, a julgar pelos resultados do concurso de colocações, publicados no passado dia 7, constatou-se que, afinal, não há falta de educadores, nem de professores de Português, Inglês, Físico-Química, Biologia e Geologia, entre outras disciplinas. A realidade há de encarregar-se de desmentir o milagre.

Por outro lado, o dito concurso veio agudizar a precarização da profissão docente de muitos colegas. Que o digam Felismina, Miquelina, Tácito, Xenofonte e Isolda (nomes fictícios, mas correspondentes a vidas reais): são professores ou educadores há 15, 20 ou mais anos; lecionaram nos últimos anos letivos em escolas das suas residências; tinham vidas profissionais estáveis, mas, no referido passado dia 7, foram levados para longe pelo vendaval que varreu a Madeira de lés a lés. Num ápice, foram arrancados das escolas em que vinham trabalhando, contribuindo para a estabilidade do corpo docente, e atirados para dezenas de kms de distância.

As reações não se fizeram esperar: no primeiro dia útil seguinte, 10 de agosto, ao SPM, chegaram dezenas de reclamações; nos dias seguintes, continuaram a chegar. Ninguém fica indiferente a relatos de vidas marcadas por acidentes de percurso, como doenças graves dos próprios, pais ou filhos; mortes de familiares próximos, entre outras situações. Vidas que, se já eram difíceis, mais difíceis serão nos próximos anos, porque divididas entre duas partes da ilha: uma de um lado e a outra (a profissional) do outro lado.

Tais movimentações nada teriam de anormal, se estivéssemos em período de excesso de professores e se os afetados estivessem no início das suas vidas profissionais, mas não é disso que se trata. Os afetados são elementos dos quadros da Secretaria Regional de Educação há muito, muito tempo, pelo que, em período de grave carência de professores, a tendência do movimento deveria ser centrípeta (em direção ao Funchal e aos centros populacionais próximos). No entanto, assistiu-se ao movimento inverso, em direção ao Norte e ao Oeste da ilha. Caso para justificar os desabafos de docentes que diziam ter voltado ao período de contratados, em que andavam sempre de casa às costas.

Não é, ainda, fácil perceber todas as razões deste retrocesso, mas não há qualquer dúvida de que, em grande medida, se deve à opção da SRE não considerar, como defende e sempre defendeu o SPM, a classificação profissional como o princípio basilar de todas as colocações de docentes na RAM. Só assim tudo seria transparente e pacífico. De outra forma, todos ralharão e só alguns terão razão.