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Envelhecer na Madeira não pode ser uma condenação

Vivemos mais. É uma das maiores conquistas da nossa sociedade. Mas há uma pergunta que não pode ficar escondida atrás das estatísticas: estamos apenas a acrescentar anos à vida ou estamos também a acrescentar qualidade de vida a esses anos?

A Madeira está a envelhecer. E enquanto se criam estruturas, departamentos e organismos onde a palavra “longevidade” fica muito bem nos títulos, muitas famílias conhecem uma realidade bastante menos bonita.

É a realidade de quem trabalhou 40 ou 50 anos, descontou, pagou impostos, criou os filhos e conseguiu juntar algumas poupanças. Quando perde autonomia, descobre uma terra de ninguém do ponto de vista social: tem demasiado para alguns apoios públicos, mas demasiado pouco para investir numa resposta privada.

É a classe média sénior esquecida.

Uma pensão que parece suficiente numa folha de Excel deixa de o ser quando é preciso pagar um lar, apoio domiciliário ou adaptar uma casa. E quando o dinheiro não chega, a fatura passa para os filhos. São famílias que gastam as poupanças de uma vida e filhos que reduzem horários ou saem temporariamente do trabalho para cuidar dos pais. E continuam a ser, demasiadas vezes, as mulheres a suportar a maior parte desta responsabilidade.

Por isso, longevidade não se resolve com propaganda institucional. Precisamos de apoio domiciliário reforçado, centros de dia adaptados, habitação assistida, residências partilhadas, redes de proximidade e verdadeiro apoio aos cuidadores informais.

E precisamos de reconhecer outra realidade: envelhecer numa ilha não é exatamente o mesmo que envelhecer no continente.

Foi por isso que apresentei na Assembleia da República uma proposta para permitir aos portugueses com residência prolongada na Madeira e nos Açores anteciparem em dois anos a idade da reforma, mediante critérios de residência e carreira contributiva. Uma proposta fundamentada em estudos e na ciência que retira aos ilhéus menos dois anos de vida.

Não peço privilégios. Defendo que a insularidade tenha efeitos concretas nas políticas públicas. Os custos acrescidos, as limitações próprias da condição insular e décadas de trabalho nas ilhas não podem simplesmente desaparecer quando chega a hora da reforma.

Também não aceito que quem trabalhou e poupou seja penalizado precisamente por ter poupado. A classe média sénior não pode continuar invisível.

Podemos criar todos os organismos da longevidade que quisermos. A pergunta continuará a ser simples: o que mudou, concretamente, na vida dos idosos da Madeira, em particular, e dos portugueses, em geral?

Juntámos qualidade aos anos à vida? É nosso dever acrescentar autonomia, segurança e dignidade a esses anos.

Porque quem passou uma vida a ajudar a construir a Madeira, os Açores e Portugal não pode descobrir, quando mais precisa da sociedade, que já não há lugar para si.