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Crónicas

O prémio da pequenez

No passado dia 20, debateu-se no Plenário da ALRAM a petição sobre a construção em altura. Foi um debate “morno”, mas positivo, porque permitiu discutir, no centro da Autonomia e da democracia, um tema que considero primordial. Gostei, em geral, das intervenções, tanto pelo conteúdo quanto pela forma; houve, porém, uma que foi chocha, carregada de banalidade, e duas que merecem as respostas que se seguem.

Na ALRAM, no dia em que se homenageou Leonel Nunes, e muito bem, desceu um comunismo em cima de Hugo Nunes, um comunismo de empréstimo, desses que se vestem por cima das convicções para ir à sessão e se deixam no bengaleiro, e o senhor deputado chamou-me liberal, vejam lá, liberal, e eu fiz beicinho, que uma pessoa tem os seus limites, até que veio o ultraliberal, o ultra acrescentado como uma condecoração ao contrário, suponho que na esperança de me ver desabar sob o peso daquelas sílabas. Comove-me a aplicação com que se procura uma palavra capaz de fazer o trabalho de uma ideia, aquela pobre palavra enviada sozinha para o combate, sem um argumento que a acompanhe, sem sequer a modesta protecção de saber o que significa, e eu a pensar que há insultos que a gente devia agradecer, certas bocas fazem-nos esse favor, tentam diminuir-nos e deixam-nos diante da dimensão exacta de quem as abriu.

A ser alguma coisa, sou social-liberal, sempre o disse de peito aberto, e nunca defendi a privatização do ensino nem da saúde, porque na minha ideia de liberdade cabe uma criança que precisa de uma escola pública e um doente que precisa de um hospital público, cabem ambos com a sua vida inteira e os seus bolsos vazios, sem terem de pedir desculpa por não trazerem dinheiro suficiente para merecer o futuro ou continuar a respirar. Parece-me elementar, mas o senhor deputado preferiu instalar-me uma doutrina à sua medida e zangar-se depois com ela, poupando-se a maçada de perceber o que penso, quando lhe bastava abrir o programa político de 2019 do CHEGA, no qual se afastava do Estado a prestação de serviços de educação, considerando que tudo devia ser privatizado. Podia começar por essa gaveta, senhor deputado, puxá-la devagar, pois certas descobertas exigem cuidado com a dignidade de quem as faz, e encontraria ultraliberalismo suficiente para gastar a indignação de uma legislatura; talvez lhe sobrasse alguma para explicar como veio procurar em mim aquilo que o seu partido deixou por escrito.

Chamou-me também hipócrita, e aqui peço ao leitor um instante de recolhimento perante tamanha vocação para a virtude, eu, que assumo o que penso e nunca andei a comer na gamela do poder, a receber uma lição de quem devia começar pelo estudo da própria “alma mater”, essa figura que anda pela República a dizer e a fazer asneiras e cujo percurso merecia uma visita da severidade moral do seu discípulo. Antes de se ocupar da minha consciência, podia fazer o inventário dos comensais, averiguar a coerência dos seus exemplos, esse pequeno trabalho doméstico que tantos pregadores adiam enquanto fiscalizam a consciência alheia, e depois sim, venha conversar comigo, traga os factos, traga os exemplos, tenha apenas o cuidado de verificar a gravata antes de subir ao púlpito, porque as nódoas dos restos do almoço prejudicam imenso um sermão sobre a fome dos outros. Quanto às restantes acusações, mastigadas com tanta pressa e tanto azedume que não consegui fixar o catálogo, dei-lhes a importância que me pareceram merecer: nenhuma, e considero esta falha de memória uma delicadeza do meu grande organismo.

Aceito a acusação de ler, de estudar, de procurar no saber dos outros o conhecimento que me falta, confesso esse pecado sem arrependimento e com a agravante de tentar continuar, porque ainda não descobri maneira mais séria de diminuir a minha ignorância. O senhor deputado, a avaliar pela intervenção que me dedicou, parece ter encontrado no vazio uma fonte inesgotável de sabedoria, aquela descarga do nada que dispensa abrir um livro e permite sair de lá convencido de que se deu uma aula. Gosto de Descartes e de condensar assim a sua lição: “Dubito, ergo cogito, ergo sum”, que traduzo, para lhe facilitar a vida, como “Duvido, logo penso, logo existo”. Tenho esse defeito: duvido, faço perguntas, confronto argumentos, estudo porque não sei o suficiente e desconfio da facilidade com que uma pessoa pode enganar, sobretudo quando começa a ouvir-se com demasiada admiração. Compreendo que a leitura incomode quem se instalou tão confortavelmente nas próprias certezas: um livro aberto há-de parecer-lhe uma ordem de despejo.

É essa disposição para perguntar que levo para a discussão da cidade, onde a liberdade também se mede pela possibilidade de pagar uma casa, de chegar ao trabalho, de envelhecer sem ficar prisioneiro de quatro paredes, de encontrar um lugar onde se possa estar sem ter de consumir. A senhora deputada Sara Madalena, do CDS, apresentou uma ideia tão encolhida desse assunto que me pareceu ouvir o raciocínio a estalar pelas costuras, agarrou numa caixa e tentou arrumar lá dentro as ruas, as casas e as pessoas dobradas em quatro para não complicarem uma explicação já suficientemente aflita com tão pouca coisa. Espantou-me aquela visão preguiçosa, agarrada às minudências com o zelo de quem receia levantar os olhos e descobrir um assunto maior. Quanto aos andares, deixo-lhe essa contabilidade, esse inventário em que a vida inteira parece caber sem deixar resto, enquanto as pessoas que eram a razão da conversa ficam à porta.

Quando falo de cidade, falo da urbe, da vida que passa entre as casas, da criança que procura caminho para a escola, do velho que mede a distância ao mercado pelo número de vezes que terá de parar para descansar, de quem regressa do trabalho e ainda encontra uma rua onde lhe apetece demorar-se, uma voz conhecida, a possibilidade de conversar sem estar a empatar o negócio de ninguém. Falo de habitar um lugar e de sentir que alguma coisa desse lugar também nos pertence, uma sombra, um banco, uma biblioteca, o direito de estar. É neste sentido que me interessa a “polis”, a comunidade que partilha um lugar e participa na construção do seu destino, independentemente do seu tamanho ou definição. Uma classificação administrativa tem as suas funções, as suas regras e os seus papéis, mas a urbanidade exige mais trabalho do que conceder um título e pregar uma placa. Se viesse por despacho, publicava-se o diploma e a civilização chegava na carrinha dos serviços, pronta a instalar, com os parafusos e buchas incluídos. Imagino o descanso que isso daria a quem considera excessivo o trabalho de perceber os outros.

Depois dos papéis, convém abrir a janela e reparar em quem ficou cá fora, quem consegue pagar uma casa, quem deixou de conseguir, onde brincam as crianças, onde descansa uma pessoa a quem as pernas começam a faltar, que espaço sobra para passar uma tarde sem abrir a carteira, como se chega ao emprego, à escola, ao jardim, e quem escuta aqueles cuja vida vai ser alterada por uma decisão tomada longe deles. São perguntas concretas; exigem percorrer ruas, conhecer hábitos, acompanhar dificuldades e aceitar que a cidade continue para além daquilo que conseguimos entender dela, hipótese que, para certas formas de conforto intelectual, deve ser uma provação. Naquela intervenção senti faltar precisamente essa curiosidade, essa atenção à vida que resiste às nossas arrumações e tem o desagradável costume de continuar a existir depois de desligado o microfone.

Um passeio acessível pode permitir a alguém sair sozinho, um transporte pode tornar possível um emprego, uma biblioteca pode abrir a uma criança uma vida que ela ainda nem sabe imaginar, uma praça pode dar companhia a quem regressaria à casa vazia, à cadeira, ao relógio que se ouve demasiado. Cada escolha urbana deixa perceber quem foi lembrado e quem se pode esquecer sem grande incómodo, incluindo aqueles que nunca aparecem nas imagens bonitas dos projectos e que, no entanto, terão de passar ali todos os dias. É desta matéria humana de que estamos a falar, e a defesa da escola pública, do hospital público e de uma cidade onde se possa viver nasce, em mim, da mesma exigência de dignidade. Convém estudar o que se critica e compreender de quem se fala, mesmo que isso atrase a satisfação de pedir a palavra por uns minutos. Hugo Nunes dispõe dessa possibilidade; Sara Madalena também. Eu até aguardava, porque há esperas que se justificam pelo benefício público.

Se na ALRAM houvesse um prémio de Trambolho do Ano, Hugo Nunes já podia mandar gravar o nome; dispensavam-se o júri, as actas e as solenidades com que se embrulha uma evidência; bastava organizar a entrega e poupar-nos o discurso de agradecimento porque exigir mais provas seria uma crueldade. A senhora deputada Sara Madalena deixou, por sua vez, um exemplo acabado da dificuldade de pensar uma cidade como um mecanismo vivo e não como coisa administrada. O seu entendimento da “polis” insiste em caber numa caixa. Foi esta a pequenez que ouvi, muito composta na sua importância, segura do lugar e do microfone, enquanto a vida de quem precisa de uma casa, de uma escola, de um hospital ou de um banco à sombra continuava à espera de entrar na conversa.