Casais adiam casamentos para “melhores dias” devido a pandemia

21 Mar 2020 / 09:51 H.

Com vestidos e fatos à medida, flores escolhidas, quintas reservadas e convites prontos, vários foram os casais da zona Norte que, devido ao surto de Covid-19, se viram obrigados a adiar o casamento para “melhores dias”.

Após 10 anos de vida em conjunto, Ana e Thiago decidiram, em janeiro, marcar casamento para o próximo dia 12 de junho, mas, entretanto, por força do “sacana do vírus”, já adiaram a cerimónia, para data ainda por definir.

“Não concebo casamento sem abraços, sem afetos, sem beijos, com medo de contaminar ou ser contaminado. O casamento é a celebração do amor e essa celebração deve ser feita na sua plenitude”, disse à Lusa Ana Matias, arquiteta de 39 anos, residente em Matosinhos.

A quinta para a festa já estava reservada, cerca de 100 convidados confirmados e o vestido comprado, mas para já fica tudo suspenso.

“Talvez fique para junho do próximo ano, vamos ver como as coisas evoluem”, atira Ana.

Até lá, promete continuar a ter muito cuidado com a linha, não vá o diabo tecê-las e, chegada a data, o vestido que comprou para o casamento já não lhe servir.

“Não faça deste evento o último da sua vida. Proteja-se”, lê-se na publicação da página ‘online’ do ‘The Wedding Villa’, um espaço no Porto que junta todos os setores e fornecedores de preparação para eventos, entre eles, casamentos.

Foi com esta e outras mensagens semelhantes que Mariana Duarte, fundadora da ‘Griffin’ (empresa que criou o ‘The Wedding Villa’) avisou os casais para começarem a adiar os seus casamentos.

“Os nossos clientes não estavam conscientes do que se ia passar, aliás, fomos nós que tomámos a iniciativa de falar com eles. Alguns aceitaram bem, outros nem tanto. No caso dos casamentos, a primeira reação foi de quererem cancelar, por esse motivo, fizemos uma publicação a apelar para não cancelarem, mas sim, adiarem”, explicou, em declarações à Lusa, a fundadora.

Mariana Duarte optou por encerrar, no dia 12 de março, o ‘The Wedding Villa’, espaço que, diariamente, recebe “cerca de seis noivas”, ora para experimentar o vestido, sapatos e joias, ora para escolher o fotógrafo, videógrafo, florista, quinta e serviço de catering.

A par do encerramento da villa e, consequentemente, adiamento de marcações, Mariana Duarte, que monitoriza também a ‘Griffin’, empresa responsável pela total organização de eventos, já viu “adiado um dos 17 casamentos agendados para este ano”, em Portugal.

“Adiámos um casamento que se ia realizar no mês de março e, contamos que no mês de abril sejam outros tantos e em maio, não queria pensar nisso, mas teremos vários adiamentos”, afirmou Mariana Duarte, admitindo que o ritmo de trabalho, nos últimos dias, “têm sido alucinante”.

“Neste momento, tentamos sempre imaginar o que podemos fazer no pior cenário (...) É obvio que vamos perder muito dinheiro, não há qualquer tipo de dúvida, mas acho que vamos conseguir aguentar”, confessou.

Com o adiamento dos casamentos, Mariana Duarte prevê, além de uma “perda financeira” para a maioria dos serviços e fornecedores, uma “sobrecarga de casamentos à semana”.

Além de trabalhar em todo o território nacional, a empresa que Mariana Duarte fundou há quase 10 anos, também organiza casamentos em Itália, onde a situação, comparativamente com Portugal, “é bastante mais grave”.

Para este ano, tinha agendados 10 casamentos no país, desses, três já foram cancelados.

“A situação em Itália preocupa-me imenso. Neste momento, não há nenhum evento em Itália de março a dezembro que seja garantido. Nenhum. Aqui em Portugal ainda podemos dizer que esperamos voltar a fazer eventos antes de julho, em Itália, não sei se vamos conseguir fazer antes do final do ano”, concluiu.

Marta Ramos, 34 anos, de Albergaria-a-Velha, também tinha casamento marcado, neste caso para 02 de maio.

O enlace foi marcado em novembro de 2019, numa altura em Marta e Tiago, o noivo, estavam muito de longe de imaginar o que estava para vir.

“Até fevereiro, foi achando que estava tudo bem, mas agora em março percebemos que não haveria a mínima hipótese e, que remédio, tivemos de adiar”, referiu Marta Ramos.

O casal, que reside em Londres, já tinha tudo tratado para o casamento, incluindo as viagens para Portugal, mas agora é tempo de cancelar tudo e de tentar reagendar para setembro.

“Queremos muito acreditar que, até lá, o vírus já se tenha ido embora, mas nunca se sabe... É chato, mas são só mais uns meses. E, olhe, temos de pensar positivo: assim, teremos mais algum tempo para pensar no passo que vamos dar”, atira, com humor.

As estórias de casamentos adiados multiplicam-se um pouco por todo o país.

No Bom Jesus, em Braga, por exemplo, sete casamentos que estavam marcados para março e abril já foram adiados.

O reitor do santuário, João Paulo Alves, disse à Lusa que já tem 127 casamentos marcados para este ano, mas, admitiu, muitos deles “acabarão por ter de ficar para melhores dias”.

Já Nina Pérez, diretora-executiva da plataforma internacional ‘Casamentos.pt’, que monitoriza todos os setores necessários à preparação de casamentos ‘online’, revelou, numa resposta enviada à Lusa, que os últimos tempos têm sido “desafiantes”.

“Acabámos de fazer um estudo com mais de 2.600 utilizadores de Itália, Espanha e França. Os resultados são encorajadores: 91,3% dos casais optaram por adiar e apenas 8,7% cancelaram o casamento”, explicou a responsável.

Apesar de “ainda ser demasiado cedo” para fazer previsões em Portugal, Nina Pérez acredita que “poderá haver cerca de 3.000 casamentos afetados”.

“Da nossa parte, sabemos que os casamentos não podem acontecer durante este período, mas sabemos que em breve, ‘o amor será celebrado de novo”, concluiu.