O Inferno somos nós

21 Mar 2020 / 02:00 H.

Como escrever em tempos extraordinários, em que o que era válido ontem deixa de o ser hoje, em que os discursos estão extremados e com um tom muitas vezes histriónico? O que escrever, sem contribuir para a desinformação, para o aproveitamento exponencial do medo, sem contribuir para a demagogia ou para a irrelevância?

A., asiática, que vive e trabalha na Região há quase 25 anos, decidiu ir ao supermercado de sempre. Primeiro, foram as crianças que fugiram espavoridas, quando a viram, aos gritos. Depois, gente adulta a cuspir-lhe um «Vai para a tua terra e leva contigo os vírus. Aceitamos a porcaria toda e agora estamos assim.»

M. foi travada no seu passeio por um grupo de indivíduos que a puxou pelo braço e perguntou por que razão não estava de quarentena e não voltava para a sua terra.

L. e M. regressaram para o hotel e pediram refeições extra porque o tratamento num restaurante da cidade foi francamente mau.

Por estes dias as pessoas que alimentam o setor mais importante da Região não regressam a casa: são repatriadas.

Nas redes sociais, pululam os vídeos de vigilantes de bairro, as sentenças iradas, os insultos à vizinha, ao turista, aos estudantes, aos familiares mais distantes, ao «monhé» do Primeiro-Ministro. Sentencia-se sobre as mulheres que lideram processos importantes e que por serem mulheres não são dignas de confiança, lança-se a deputada negra para uma quarentena na senzala porque votou de forma com a qual não concordamos. E diz-se que nada é por mal.

São tempos de exceção e quem é atingido que se aguente a tudo isto, porque tudo isto é fruto do medo – e do ódio que vem do medo – da necessidade de sobrevivência: antes eles que nós.

Tudo isto me assusta e me deixa ensimesmada. Assusta-me porque não compreendo estes discursos que exacerbam sentimentos «patrióticos» ou «autonómicos», que potenciam preconceitos e discriminações irracionais numa altura em que a responsabilidade, a solidariedade e empatia são fundamentais. Pensativa porque questiono como achamos nós que vamos reverter tudo isto, que recuperaremos a confiança das pessoas que agora insultamos, escorraçamos e tratamos como menos dignas que nós. Como nos levantaremos depois de tudo isto?

Há duas semanas ainda não nos tínhamos apercebido de que obrigatoriamente tudo teria de mudar. Se a semana passada saíamos tranquilamente para trabalhar, com as nossas rotinas bem estabelecidas, hoje sabemos que devemos reduzir ao máximo os nossos contactos sociais, que temos de ficar em casa, reduzir as saídas ao estritamente necessário. E quando saímos, sabemos que devemos manter a distância de segurança que se convencionou ser de um metro, lavar as mãos sempre que possível, evitar contactar superfícies demasiado expostas... trocamos ideias para manter as nossas crianças em casa, recuperamos jogos, equilibramos (ou tentamos equilibrar) o trabalho a partir de casa com as solicitações constantes das nossas crianças. Trocamos mensagens sobre o tédio, ligamos a televisão e as redes, lemos jornais. Mas do nosso alinhamento muito pouco sobre as pessoas mais vulneráveis no meio de disto tudo.

Tenho lido que este é um vírus igualitário, que afeta independentemente do sexo, estrato social, conta bancária, país de origem, etnia ou religião. E se por um lado isto é verdade – o vírus não escolhe o hóspede tendo em conta estas categorias – por outro as suas consequências continuam a ser piores para quem está em situação de desigualdade.

Segundo a UNESCO, em 102 países são cerca de 850 milhões de estudantes que estão em casa. Quantas destas crianças e adolescentes terão o devido apoio e condições necessárias em casa? Como é que famílias que têm dificuldade em viver o dia-a-dia, armazenam para 8 ou para 15 dias?

E quando o isolamento social significa permanecer no local mais perigoso onde se pode estar, como é o caso das vítimas de violência nas relações de intimidade, as crianças e pessoas idosas vítimas de maus tratos?

E quando as pessoas não têm acesso a água ou sabão para lavarem regularmente as mãos? Ou a cara, ou os pés? Como é que as pessoas que não têm casa ficam em casa?

Que respostas perante outros humanos, como nós, que não têm quaisquer condições que lhes permitam sobreviver a tudo isto? Como é com as 5500 crianças que estão nos campos de refugiados/as nas ilhas gregas? Com as 42 mil pessoas que sobrevivem nestes campos que já foram chamados de campos de concentração do séc. XXI – e que também não são imunes a este vírus? Por onde anda a Europa solidária?

No meio de tudo isto, felizmente, reconhecemos os e as profissionais de saúde que continuam a sair de casa para garantir que tudo (nos) corra pelo melhor. São dignos da nossa gratidão, e não consigo imaginar o peso extra que carregam nestes tempos. Mas tendemos a esquecermo-nos de todas as outras pessoas que continuam a garantir-nos alguma normalidade; das pessoas que continuam a repor prateleiras, a limpar o chão das superfícies comerciais, que recolhem o lixo, que mantêm as ruas limpas, que transportam doentes, que asseguram outros serviços e atividades que certamente não citei. Quando esta semana fui ao supermercado, a pessoa que estava na caixa contou que as coisas estavam a melhorar, que já tinha sido muito pior, que as pessoas reagiam mal. «Ontem houve uma altura em que só me apetecia chorar.» Quantas destas pessoas, a quem não batemos palmas, são emigrantes, que no regresso a casa serão insultadas por nós que achamos que temos o direito de policiar e mandar as pessoas para casa – ou para a sua terra?

Quando teremos nós discernimento para compreender que o inferno será muito menos infernal quando assumirmos que os outros também somos nós? E investirmos mais no reconhecimento de que partilhamos esta condição de vulnerabilidade (perante o vírus e o medo) e porque não fazermos disso a nossa força – e a nossa salvação?

Elisa Seixas

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