Há gente a precisar de apoio urgente

10 Mai 2020 / 02:00 H.

Já há mais gente a recorrer diariamente à linha telefónica de apoio psicológico do que a ter dúvidas sobre o coronavírus, questões que até há bem pouco tempo desembocavam com frequência no SRS24. As incertezas e os dramas existenciais já atormentam mais do que os sintomas da doença que nos marca de forma severa.

Já há mais gente com fome e a experimentar a pobreza extrema do que a remediar-se com aquilo que produz. Nem tudo acaba nos alinhamentos noticiosos e quem lida com as instituições de solidariedade, com as escolas e com os centros sociais sabe que, por múltiplas razões, os mais frágeis da nossa sociedade podem não morrer por causa da covid-19, mas dificilmente sobrevivem ao desemprego-20 e à miséria-21.

Por isso, numa Região que geriu bem a componente sanitária exige-se agora, com igual sentido de pertença, nobreza de carácter e empenho executivo, uma atitude altruísta sem precedentes, que não fique confinada aos ricos, aos que de repente reclamam por apoios mas têm dinheiro em abundância nas contas bancárias, aos que não se mostram melindrados com a mudança de hábitos porque não viram os salários beliscados, aos espertos do costume que se anteciparam às regras e aos timings e já beneficiam de dádivas públicas. É preciso que o dinheiro chegue já a quem precisa, às famílias que pouco tinham e agora ficaram sem nada e aos envergonhados que caíram em desgraça mesmo que num passado recente fossem remediados. Mais do que tablets e bandas largas, do que burocracias e promessas, do que cheques sem cobertura e de mentiras compulsivas há uma parte considerável do nosso povo que precisa de ajuda para ter comer na mesa, carinho e rumo, de preferência, sem sensacionalistas e políticos com sacos de esmolas por perto.

A coragem que demonstramos quando, com sacrifício, ficámos em casa, não celebramos os momentos festivos agendados e evitamos contactos presenciais com a família e os amigos terá que ser agora evidente noutros domínios e actuações. Sim, a Madeira genuína, feita de mulheres e homens que nos enchem de orgulho, precisa de nós como nunca.

O principal motor da economia regional está parado. Dizem que espera por peças milagrosas de Bruxelas, que a 13 de Maio tudo decidirá sobre o futuro colectivo dos destinos turísticos que precisam de gente com dinheiro e sonhos. Crentes ou não, muitos encolhem os ombros, sobretudo quando olham para o propalado desconfinamento das coisas com elevada reserva. Dificilmente a Madeira levanta voo para a nova normalidade só com obras públicas e construção civil. Só com esperança discursiva. Só com a repetida tese da culpa alheia. Só com os reféns de um contencioso inútil.

Enquanto dura este intervalo nos projectos de vida, o telefone toca, os e-mails transbordam na gaveta ‘urgente’ da caixa de correio electrónica e o whatsapp notifica sem descanso. O desespero impera. Os apelos à ajuda multiplicam-se. “A austeridade já está instalada”, confessou Miguel Albuquerque na passada sexta-feira. Ontem ouvimos na TSF os autarcas Pedro Coelho e Miguel Silva Gouveia a admitir a que classe média também já está a ser afectada e passa momentos muito difíceis; que a crise social é transversal e que há histórias dramáticas de necessidade de apoio e assistência social. Todos conhecemos alguém neste estado, mergulhado em situações impensáveis, que julgávamos reservadas à ficção. A guerra silenciosa já faz das suas e dizem que o pior está para vir. Logo, quem pode terá que ponderar muito bem que gestos deve privilegiar nos próximos tempos.

Temos pensado como despertar consciências e, por isso, mostrado dramas que causam insónias. Como devem calcular, a crueldade dos factos, a dor expressa nos testemunhos, a precariedade que emociona não nos dá gozo. A aflição toca-nos. Obriga-nos a sermos melhores. Exigentes. Interventivos. Mais do que sermos sensíveis a estes problemas, mesmo com olhos molhados e coração despedaçado, temos que actuar com prontidão e solidariedade, - e felizmente, de diversas formas, alguns têm sido! - antes que a violência entre em jogo, os assaltos encham as páginas de jornais e os desequilíbrios emocionais tomem conta desta vida que tanto trabalho deu a erguer.

Ricardo Miguel Oliveira