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O Discernimento

«Vêm-me à cabeça, resguardada a distância histórica, as palavras de S. Pio X*, quando adverte sobre o “grande movimento de apostasia, organizado em todos os países, para o estabelecimento de uma Igreja universal que não terá nem dogmas, nem hierarquia, nem regra para o espirito ou freio para as paixões e que, sob o pretexto de liberdade e de dignidade humana, consagraria no mundo, se pudesse triunfar, o reino legal da astúcia e da força e opressão dos fracos, dos que sofrem e trabalham”.

Ao longo da história, se algo caracteriza as grandes apostasias, é a confusão. Sem dúvida, atravessamos um período de desordem muito pior que o de 1910: a confusão é maior. (...)

O discernimento é essencial nos dias de hoje para julgar com sentido cristão as realidades temporais, as situações humanas, as correntes de pensamento, as tendências da opinião pública. No entanto, pode-se dizer que nós cristãos perdemos esse espírito crítico saudável e caímos muito facilmente no fascínio do que os outros querem que pensemos e do modo como querem que ajamos. Fascinam-nos com “vidros coloridos” e, talvez, aspiremos a formas de vida e adotemos esquemas de pensamento, por exemplo, sobre a liberdade religiosa, a democracia, o pluralismo, a preocupação ecológica – que, ainda que nos façam aceitáveis em meios sociais de poder económico e social, nos afastam da verdade e nos aproximam da apostasia.

Sem dúvida, discernir é acima de tudo uma graça que humildemente pedimos a Deus, mas a ajuda de Deus deve ser acompanhada, da nossa parte, pela disposição de obtê-la e aplica-la às circunstâncias específicas, ainda que isso nos crie dificuldades.

Para o exercício desta atitude, é necessária uma sólida formação na doutrina católica tradicional, que não é nem mais nem menos que estar ciente da genealogia da fé, das nossas raízes cristãs, que nos dão a perspectiva de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Além disso, longe de ser algo secundário, no discernimento católico da realidade é fundamental uma sólida piedade que se alimente do trato assíduo com Jesus Cristo, fonte da autêntica humildade. »**

O discernimento é sempre e cada vez mais necessário. Existem os valores absolutos e transcendentais, como a Verdade, o Bem e o Belo. Aqueles que os percebem, os honram e os amam, percebem, honram e amam Jesus Cristo. Mas se os cristãos se deixam relativizar, entram em concordância com os critérios mundanos, preferirem agradar ao mundo e aos outros, guiar-se pelo politicamente correcto, a covardia e a apostasia instalam-se, a confusão aumenta e a integridade moral cede lugar a uma apatia ética, permissiva e permeável a todas as tentativas de raciocínios utilitaristas, redutores da dignidade humana em rampa deslizante para apoiar e defender o oposto aos desígnios de Deus para a Humanidade.

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