De volta à escola
Havia uma certa ansiedade no regresso à escola. Não era apenas pelo reencontro com os colegas, mas também pelos preparativos que começavam bem antes do primeiro dia de aulas.
Além do caderno quadriculado, o de duas linhas, o de uma linha e a sebenta, o lápis e a borracha Viarco, um livro e uma caixinha de 12 cores seria o essencial para preencher a pasta de cabedal do irmão mais velho, ou de napa.
Uns sapatos n.º 38, de sola de pneu e pele de carneiro, mandados fazer no José, o sapateiro. Eram acima da medida, claro! E, para preencher a biqueira, lá se colocava um pedacinho de pano velho, aproveitado dos restos de algumas cuecas. Tudo para que os sapatos durassem o ano inteiro. Eram feitos grandinhos, não fosse o pequeno crescer os pés mais depressa do que o juízo!
Éramos 42 numa sala, numa escola com apenas seis salas e um professor por turma. Havia respeito, disciplina e rigor. E havia também a nossa contínua, a Sr.ª Mariazinha, severa como um juiz, mas com um coração que não lhe cabia no peito.
Era uma escola onde a ordem e o rigor faziam parte do dia a dia. Muito bem cuidada, e onde os próprios alunos contribuíam para a limpeza fundamentalmente, não sujando. Os jardins eram tratados com cuidado e, nas aulas de Ciências da Natureza ou durante o recreio, serviam também para aprendermos a importância de preservar aquilo que era de todos.
Os percursos entre casa e escola eram feitos a pé, com cuidado e responsabilidade. Nas aulas de prevenção rodoviária aprendíamos as regras, os sinais de trânsito e os comportamentos que devíamos ter na rua.
O respeito pelos bens que pertenciam a todos era uma norma que ninguém se atrevia a desrespeitar. Sabíamos que havia consequências. As brincadeiras pelo caminho, por vezes, pisavam o risco havia sempre os mais atrevidos, mas também sabíamos onde estavam os limites.
Nas aulas de Educação Física ou até no recreio, quando alguém se magoava, lá estava a polivalência da Sr.ª Mariazinha. Juntamente com o professor e com os poucos recursos de primeiros socorros disponíveis, resolvia-se quase sempre a emergência.
E quando alguém se excedia, chamava nomes ou tentava iniciar uma agressão, bastava muitas vezes um encontro de ombros da nossa contínua para fazer desaparecer a coragem do agressor. E por ali ficava a questão. Se alguém ultrapassasse verdadeiramente os limites, qualquer professor ou a própria contínua sabia impor a autoridade. E assim passávamos três períodos das nossas vidas que hoje recordamos com uma enorme saudade. Saudade de uma escola onde aprendíamos matemática, português e ciências, mas também aprendíamos respeito, responsabilidade, disciplina, civismo e liberdade.
Hoje, ao olhar para o modelo de educação que construímos, não consigo deixar de perguntar: Trocamos a ardósia pelo tablet; Foi para isto que aprendemos o significado de LIBERDADE?
Será que liberdade é crescer sem referências, sem autoridade, sem responsabilidade e com cada vez mais regras, proibições e condicionamentos? Será que estamos a dar aos nossos jovens mais liberdade ou simplesmente a trocar a responsabilidade pela proibição?
Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela que elimina todos os limites. É aquela que ensina os seus cidadãos a conhecer os limites, a respeitá-los e, sobretudo, a assumir a responsabilidade pelas suas escolhas.
Afinal, que liberdade estamos a construir para as próximas gerações?
A. J. Ferreira