O herói que ninguém pediu
O objetivo deste artigo de opinião não é elencar o vasto rol de encenações, contradições e disparates perpetuados por André Ventura e pelos seus discípulos. Até porque o limite de caracteres que zelo por respeitar não permitiria esse exercício. Não vou portanto falar de gabinetes semi-assaltados, de currículos semi-aldrabados, nem da reação boçal e animalesca da bancada do Chega após a rejeição da sua absurda moção de censura.
Por influência do meu pai, desde cedo aprendi que o cinema não só é uma arte ímpar, como também nos permite, através das suas personagens e das suas histórias, estabelecer relações com o que nos rodeia na vida real, seja no prisma pessoal, profissional ou político. “O Cavaleiro das Trevas” é uma das mais geniais criações de Christopher Nolan e é nesta obra de 2008 que encontro uma frase que me marcou particularmente desde a primeira vez que vi o filme: referindo-se ao Joker (Heath Ledger), Alfred (Michael Caine) diz-nos que “alguns homens apenas querem ver o mundo arder”. À data de hoje, fica difícil não considerar Ventura uma espécie de Joker ligeiramente mais bem vestido: o seu terrorismo comunicacional, a sua apologia ao medo e a sua vontade de falir a credibilidade de todas as instituições públicas e democráticas do País.
A popularidade de André Ventura nasce do aproveitamento sujo dos instintos humanos mais básicos e a sua mensagem de ódio prolifera às costas dos seus paladinos. Todos os temas em que o líder do Chega toca têm como objetivo último virar portugueses contra portugueses, virar cidadãos contra cidadãos. Não está minimamente preocupado em acreditar no que diz ou se está, sequer, a dizer o rigoroso oposto de palavras que proferiu cinco minutos antes. A fórmula é sempre a mesma: capitalizar polémica, falar mais alto do que os civilizados e professar “a decadência do sistema”. Os exemplos históricos estão estudados e documentados, dentro e fora da Europa. E conhecem-se bem os desfechos.
André Ventura e os seus comparsas não teriam a menor ideia do que fazer no dia em que o poder lhes caísse no colo. Mas a luz exige trevas. Talvez essa seja mesmo uma inevitabilidade do caminho necessário à implosão do Chega. Talvez tenhamos mesmo de assistir a um último e mais gravoso ato do circo de Ventura para que Portugal tenha a oportunidade, tal como Gotham teve, de demonstrar ao Joker que a competência, a bondade e o humanismo são as respostas acertadas perante um sonho individual de ver tudo em chamas.