O bom, o mau e o filósofo
A horda de hunos que ocupa 60 cadeiras na Assembleia da República apresentou (mais) uma moção de censura. O documento, previsivelmente chumbado, não almejava derrubar o Governo, mas apenas demitir um ministro. O vandalismo parlamentar do Chega, que esmaga as regras à mercê dos vídeos de TikTok onde os seus deputados são tristes figurantes, culminou num ritual ensaiado. Toda a bancada de pé, mãos a esmurrar as mesas e “demissão” vociferado em coro. Ventura, coreógrafo de vândalos, limita-se a contar as visualizações.
O bom: Ricardo Reis
Chamaram-lhe privilégio exorbitante. A diferença entre os juros que americanos e alemães pagavam por um risco semelhante de incumprimento. Apesar do perfil parecido, durante décadas, os Estados Unidos e as suas empresas beneficiaram de um chorudo desconto de 20 pontos face à Alemanha. A condição de grande banqueiro do mundo fazia da dívida pública americana o porto de abrigo para os investidores. Com a chegada de Trump, e pela primeira vez em 30 anos, os Estados Unidos pagam mais pelo seu financiamento do que a Alemanha. Ricardo Reis, economista português, explica a mudança com a perda de credibilidade americana, agravada pela montanha russa que é a política comercial de Trump. Das medidas populistas e de eficácia duvidosa, as tarifas comerciais são a mais conhecida e a mais prejudicial aos americanos. Ricardo Reis é mordaz, mas factual, na crítica. Primeiro, as repetidas ameaças de tarifas a 25% e 50% redundaram numa tarifa média, mais suave, de 7%. Segundo, as tarifas refletiram-se, maioritariamente, no preço pago pelos consumidores americanos. Terceiro, entre os beneficiários das várias isenções concedidas por Washington, contavam-se os amigos do próprio presidente. Apesar de ser candidato a economista-chefe do FMI, convenientemente sediado nos Estados Unidos, Ricardo Reis manteve-se académico, factual e indiferente ao ruído. Talvez por isso, depois de quase o ter escolhido, o Fundo o tenha deixado cair à última hora. A independência intelectual tornou-se incompatível com a Casa Branca e o FMI provou que a credibilidade de uma instituição vale menos do que o endereço que ocupa.
O mau: Resultados PISA
No PISA 2025, programa da OCDE que compara o sistema educativo em 90 países, Portugal obteve 462 pontos a Leitura, 460 a Matemática e 482 a Ciências. É o nosso pior desempenho de sempre a Leitura e uma nota a Matemática que nos faz recuar mais de 20 anos. No ranking, somos o 29.º nas Ciências, 26.º na Leitura e 30.º na Matemática. Poderia parecer um mau ano, mas é uma década de opções políticas arrasada pelos números. Os resultados de 2025 começaram a desenhar-se em 2016. Até essa data, de Durão Barroso a Passos Coelho até Sócrates, existia uma unanimidade silenciosa em torno da base do sistema educativo português. Currículos exigentes, concentração da carga horária em Português e Matemática e avaliação externa com peso na nota. Com base nesse consenso político, Portugal teve, entre 2006 e 2015, os melhores registos de sempre no PISA. Em 2016, o consenso rasgou-se e trocaram-se conhecimentos por competências, exames do 4.º e do 6.º ano por provas inconsequentes e, em 2018, chegaram as Aprendizagens Essenciais, com a erosão curricular que o nome tenta esconder. No meio do resultado desastroso, há um dado positivo que merece registo. Na sala de aula estamos, em todos os indicadores, acima da média da OCDE. A maioria dos alunos diz que o professor mostra interesse pela sua aprendizagem e garante que recebe ajuda adicional quando precisa. A docência, apesar de tudo, continua a fazer mais em Portugal do que na média da OCDE. O que falhou, não falhou na sala de aula.
O filósofo: Élvio Sousa
Apesar de tudo (e não é pouco), Élvio Sousa é o político que dá luta ao PSD e ao Governo. Célia Pessegueiro, presidente do PS Madeira, afastada do parlamento, é incapaz de marcar a agenda mediática e começou a semana a discutir uma apreensão de gaiado. Hugo Nunes, líder do Chega Madeira, reduz-se a uma imitação de segunda categoria de Francisco Gomes, que, por sua vez, é uma imitação de quinta categoria de André Ventura. Nas hostes liberais, Nuno Morna, fora do parlamento e do partido, tem maior alcance que Maia Camelo eleito deputado. É neste deserto político que o JPP se tem reinventado. De movimento a partido, de Gaula à República, dos papelinhos às conferências. É umbilical a ligação de Élvio Sousa ao percurso crescente do partido. Mas a verdade menos confortável é que a ascensão do JPP diz mais sobre a paisagem em redor do que sobre o partido. É esse vazio da oposição madeirense que permite ao presidente do JPP repetidas proclamações de recorte esotérico e dimensão faraónica com aparente impunidade. Toda a conferência de apresentação de mais uma reinvenção do JPP é exemplo disso. A declaração que o JPP será uma “força nacional de domínio regional” é tão absurda que não merece contraditório. A reflexão de que “a tribo só conquistará o Reino saindo da sua muralha defensiva” parece saída de um livro de autoajuda com tradução duvidosa. O anúncio, pela enésima vez, da Comissão Autárquica do Funchal, apesar da hemorragia de militantes na capital. A multiplicação de comissões, gabinetes e coordenações sempre subordinadas ao presidente do partido. E, do discurso, sobra uma mixórdia de lugares-comuns embrulhados em papel de grandiloquência. Élvio Sousa anunciou uma nova era, mas o espírito de beato é sempre o mesmo.