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O reflexo dos infalíveis

Há uma espécie política particularmente interessante, não pela raridade, mas pela extraordinária capacidade de se imaginar rara. Habita os píncaros da própria consciência, arroga-se a tutela da decência, da liberdade e da democracia, e contempla qualquer divergência como sinal de desvio moral, ideológico ou, nos casos mais criativos, mercenário.

É o velho maniqueísmo, bafejado por uma santimónia moderna para a qual toda a divergência precisa de uma origem obscura, como se a autonomia de pensamento fosse já uma extravagância difícil de admitir. Esta peculiar forma de purismo viceja especialmente bem em meios estreitos, onde as vaidades provincianas facilmente adquirem dimensões imperiais e umas linhas de jornal bastam para provocar uma convulsão desproporcionada - que talvez seja apenas uma forma menos digna de disfarçar a falta de ataraxia.

Esta aristocracia moral tem, entre outras virtudes, uma relação bastante cómoda com aquilo que condena nos outros, usando o insulto como instrumento de intimidação e promovendo-o depois a coragem, enquanto a mentira, quando útil, é repetida com a serenidade de quem espera que a insistência substitua a prova. E quando os factos se tornam incómodos, há sempre uma forma de os arredar, ainda que os documentos permaneçam e os jornais arquivem o que aconteceu, já que a narrativa, essa, segue caminho como se nada disso existisse.

Mais curiosa é a necessidade de encontrar uma genealogia para cada ideia que incomoda, como se uma opinião não pudesse nascer do juízo de quem a escreve e tivesse sempre de trazer presa à lapela a matriz de onde veio, o ambiente em que amadureceu ou a mão invisível que a ditou. É um vício antigo da política este de desconfiar da autonomia alheia, procurando a origem em vez de enfrentar o argumento. Esse exercício tem, porém, os seus riscos, sobretudo em meios pequenos, onde as transumâncias políticas são frequentes e não raro se descobre, já tarde, que os vícios atribuídos às origens dos outros deixaram também uma descendência confortavelmente instalada por perto.

Há ainda quem faça do nome alheio uma pequena demonstração de poder, como se a supressão de um sobrenome pudesse acrescentar dignidade a quem o retira - uma ilusão que acaba por se desfazer sozinha, porque o nome permanece inteiro enquanto a ausência de decência fica à vista, e talvez seja por isso que convém convocar grandes autores em socorro de querelas tão pequenas, emprestando-lhes uma grandeza que dificilmente alcançariam por mérito próprio, embora nem os maiores mortos tenham encontrado ainda maneira de transmitir intelecto por citação.

A liberdade costuma ser fácil de defender enquanto permanece uma ideia confortável e distante, tornando-se bastante menos consensual quando alguém a exerce para dizer aquilo que não queremos ouvir, e com o Estado de Direito passa-se algo semelhante, porque as suas garantias parecem sempre mais evidentes quando protegem os nossos do que quando obrigam a reconhecer aos outros exatamente os mesmos direitos.

A precisão jurídica de certas palavras maçadoras, próprias do Estado de Direito, nem sempre convém à espuma populista. Às vezes, uma suspeita basta para sustentar uma condenação moral; noutras circunstâncias, redescobre-se, com resplandecente fervor civilizacional, que ninguém deve ser tratado como culpado antes de o ser. Nem a lei nem o direito mudaram, a conveniência é que vai ditando a narrativa.

É aqui que o retrato se torna mais nítido, já que há quem passe anos a fazer do contraditório profissão e descubra, com genuína perplexidade, que o contraditório funciona nos dois sentidos; quem se habitue a inquietar os outros e considere uma insolência ser inquietado; quem tenha por missão contrariar poderes e desenvolva uma sensibilidade quase epidérmica quando um cidadão qualquer decide contrariá-lo. Um artigo de opinião continua, apesar de toda a mitologia que se possa construir em redor dele, a ser apenas isso: a opinião de alguém. Se umas linhas bastam para provocar tamanha convulsão, talvez o problema não esteja no que foi escrito, mas na precisão com que foi recebido.

A Lei de Brandolini lembra-nos que inventar custa pouco e desmontar custa muito. O silêncio seria, por isso, a escolha mais fácil - contudo, em certas ocasiões os princípios e valores que pugnamos tornam essa escolha impossível.

Desde tempos imemoriais, os proprietários da verdade sofrem todos da mesma fragilidade - suportam muito mal a existência de inquilinos. No fim, há gestos que nunca alcançam quem pretendem ferir e acabam sempre por assinar o retrato político de quem os pratica - é o chamado “reflexo dos infalíveis”.