DNOTICIAS.PT
Crónicas

Os Buracos da Minha Cidade

A minha cidade não tem buracos, tem caboucos, arregôas, arreturas, pequenas fundegas de asfalto onde a civilização vai dar o canêlo devagarinho, sem pressa, como quem espera que o próximo orçamento, a próxima empreitada, o próximo comunicado da Câmara, com palavras caras e caratre sério venham finalmente amanhar aquilo que toda a gente abispa todos os dias, a passadeira escangalhada, a estrada esbambalhada, o remendo atamanhado, a tinta branca partida em cacos como ossos de um bicho antigo esmagado por abelhinhas, autocarros, motas, promessas e pela santa paciência dos peões, esses animais de carga que ainda atravessam a rua à pata, desviando-se das covoadas e dos buracos com a elegância triste de quem já percebeu que a cidade, em vez de cuidar deles, lhes faz uma apilhagem diária, apanhem lá esta fenda, apanhem lá esta pedra solta, apanhem lá este calço, este atrapalho, esta cambeira, esta pequena armadilha pública posta no caminho por ninguém e assumida por menos ainda.

Porque na minha cidade ninguém é culpado de nada, estepilha, a culpa é sempre da chuva, do tempo abatumado, do uso, do trânsito, da inclinação, da natureza vulcânica, do diache, talvez até dos entrepassados. Nunca da gestão, nunca da manutenção, nunca dessa arteira forma de governar que se senta aboseirada à sombra dos gabinetes enquanto cá fora o asfalto se abre em beiças negras, em feridas, em bocas sem dentes, em buracas de uma democracia municipal que pinta passadeiras sobre ruínas e chama a isso mobilidade, segurança, modernidade, talvez até sustentabilidade, palavra que serve para tudo, como a salsa nos adugues da sopa. Menos para explicar porque raio uma cidade que sabe inaugurar rotundas, estátuas, jardins, miradouros, festas e o inevitável espiche dos senhores importantes não sabe, ou não quer, manter uma rua inteira sem parecer que passou por ali uma manada de burianos com ambição urbanística.

Há qualquer coisa de profundamente madeirense e profundamente universal nestes buracos, porque eles não são apenas falta de alcatrão, são falta de vergonha, falta de memória, falta de zelo, são a prova material de que o provisório se arrecebeu com o definitivo e tiveram muitos filhos feios cuma noite dos trovões: um arremendo aqui, outro acolá, uma chapa de asfalto por cima da doença, uma pintura nova em cima da podridão, um bocadinho de pó eleitoral nas fendas e siga a carreira. Que o povo desavisado se amanhe, que o velho desminta um pé, que a criança tropece, que o motociclista tome um cagaço, que o contribuinte pague, que o poder faça focinho quando alguém crama, porque o cidadão que se queixa é sempre impertinente, catraio, craca, bilhardeiro, nunca apenas alguém com olhos na cara e bagas suficientes para ver que a estrada está uma desgraça.

A passadeira, essa grande invenção civilizada que devia dizer ao peão “passa, estás protegido”, aqui diz antes “passa se fores capaz, meu trambolho, e agarra-te às orelhas se caíres”, porque até a tinta branca parece ter levado uma bafa de tão rachada, descascada, esfarelada, reduzida a cacos, um tratado visual da incúria. No meio dela abre-se o buraco, não o buraco espectacular das tragédias, não o abicadouro romântico onde se precipitam heróis, mas o buraco burocrático, o buraco pequeno, persistente, mesquinho, fona, esgalgado, aquele buraco que ninguém repara, a não ser quem lhe passa por cima, porque não dá fotografia, não dá fita cortada, não dá publicação com música inspiradora e legenda cheia de fumaça, embora dê pneus rebentados, quedas, irritação, perigo, e essa estranha educação cívica pelo medo que nos ensina a caminhar de olhos no chão como se a cidade fosse uma madrasta com más intenções.

Depois vêm os remendos, ai os remendos, essas almanjarras de betume, essas chapas tristes, esses pensos mal postos numa pele que já não aguenta mais, e cada remendo diz “não resolvemos, adiámos”, cada mancha escura diz “foi o que se pôde arranjar”, cada pedaço de asfalto novo em cima do velho parece uma mentira recente colada a uma mentira antiga, e assim a cidade vai ficando emolhada de desculpas, empancada de promessas, encafuada numa lógica de pequena poupança que sai cara, porque o barato, como se sabe desde que o primeiro burgesso decidiu construir uma casa sem alicerces, acaba sempre por pedir contas com juro. Mas o mais extraordinário, e aqui entra a parte verdadeiramente brilhante da estupidez humana, essa indústria inesgotável, é a habituação, o modo como todos nós, moradores, peões, condutores, comerciantes, vamos incorporando o buraco na geografia íntima da cidade. Aprendemos onde esvarar, onde desviar a roda, onde levantar o pé, onde calar o impropério para não parecermos demasiado dramáticos, e assim a degradação deixa de ser escândalo para se tornar costume, deixa de ser falha para se tornar paisagem, deixa de ser vergonha para se tornar cenário, como se a cidade tivesse decidido envelhecer mal e nós, muito asservados, muito capazes, muito civilizados na nossa resignação de basculhos eleitorais, lhe déssemos razão. Só que os buracos não são mudos, os buracos falam, falam melhor do que muitos discursos, não fazem espiches, não usam palavras como visão, estratégia, excelência, resiliência ou requalificação, essas berlotas vocabulares que enchem a boca dos poderes locais como dentinho da tasca, mas dizem o essencial, dizem que houve dinheiro para umas coisas e não houve para outras, dizem que há prioridades com palco e prioridades sem palco, dizem que o chão que todos pisam vale menos do que a obra que alguns inauguram, dizem que a cidade real, a cidade das solas, das rodas, das quedas, das bengalas, dos carrinhos de bebé, das motas, das pessoas que trabalham e atravessam ruas antes de amanhecer, essa cidade fica quase sempre depois da cidade cerimonial, a cidade dos convites, das fotografias, das placas, das declarações alambriadas e da propaganda contente. E então a realidade entra por aqui, não como fantasia decorativa, mas como única forma honesta de descrever o absurdo, porque estes buracos já não são simples buracos, são pequenos seres nocturnos, filhos da chuva miúda e da negligência, que crescem à boquinha da noite, alimentam-se de pneus, bebem augage das valetas, cochicham com as tampas de saneamento, fazem modilhos às passadeiras, riem-se dos sapatos novos dos turistas e dos joelhos dos velhos, e de manhã estão maiores, mais fundos, mais descarados, quase com vida própria, como se cada cabouco tivesse sido nomeado para uma comissão municipal de acompanhamento da ruína. Há um buraco que parece um vereador cansado, outro que parece um relatório esquecido, outro que tem a brônica exacta de um despacho sem cabimento, outro ainda que se abre no meio da passadeira com a solenidade de quem diz “aqui jaz a manutenção preventiva, morta por falta de comparência”, e nós passamos, nós todos, a cambada de contribuintes, nós que pagamos o alcatrão antes, durante e depois de ele se desfazer, passamos por cima desse ceramite de promessas como se fosse normal, como se a normalidade fosse isto, uma cidade que se desfaz por baixo enquanto por cima se fala de futuro, uma ilha que sabe vender horizonte mas tropeça no passeio, uma administração que fala de mundo enquanto não atrema o chão que tem debaixo dos pés; e talvez seja por isso que estes buracos me irritam tanto, não pela sua existência isolada, porque tudo se estraga, tudo cansa, tudo precisa de obra. Até as pedras têm direito à sua fadiga, mas pela arrogância tranquila com que permanecem, pela maneira como se instalam, se aposinham, se tornam vizinhos, quase família, pela forma como denunciam uma cultura política que prefere o remendo à responsabilidade, o anúncio à conservação, o brilho à decência.

E não há aqui grande mistério técnico, por muito que venham os entendidos com capacete, prancheta e cara de quem descobriu a gravidade numa conferência sobre buracos inteligentes, porque uma rua esburacada é uma rua esburacada, uma passadeira destruída é uma passadeira destruída, uma cidade que não cuida do chão onde as pessoas passam é uma cidade que, no mínimo, perdeu a vergonha pelas estradas, pelos caminhos, becos, travessas e veredas, e no máximo já começou a perder a alma. Os buracos da minha cidade são, portanto, uma espécie de autobiografia involuntária do poder, escrita em alcatrão partido, tinta descascada e pedra solta, uma autobiografia sem revisão, sem prefácio, sem pedido de desculpa, onde cada fenda é uma frase e cada cratera um capítulo, e quem quiser ler que olhe para baixo, porque às vezes é no chão, não nos discursos, que se encontra a verdade de um lugar.

2. Em 2025, a Câmara Municipal do Funchal arrecadou cerca de 14 milhões de euros em taxas turísticas. Catorze milhões. Não estamos a falar de meia dúzia de moedas perdidas no fundo da aljava municipal. Estamos a falar de dinheiro sério, cobrado em nome da pressão turística sobre a cidade. Portanto, a pergunta é simples: para onde foi? Porque, olhando para as passadeiras esbambalhadas, para os caboucos no asfalto e para os remendos atamanhados, fica a sensação enternecedora de que a taxa turística serviu sobretudo para financiar uma coisa: a arte superior de fingir que se governa. A Câmara devia explicar, rua a rua, euro a euro, onde aplicou esse dinheiro. Mas talvez isso fosse pedir demais. Afinal, para tapar buracos é preciso alcatrão; para tapar perguntas, pelos vistos, basta um espiche.