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Óscar, ainda bem que não viste isto

O Óscar partiu. Com o seu sorriso e a sua simpatia. Conheci-o desde sempre, desde que me lembro de existir, com a mesma atitude, o mesmo humor e a mesma educação. Faria anos esta . Era um senhor, ao lado da sua Isabel de toda a vida. Um dos últimos deputados da velha guarda, conhecido pelas suas tiradas assertivas e diplomacia inata aplicada ao longo de décadas de parlamento. Já não se fazem pessoas assim. É pena!

Se por cá andasse, gostava de me ter sentado na Penha d’Águia da Ajuda para falar do acontecimento que varreu o país nas últimas semanas. Não, não foi o preço dos combustíveis, o doido do Trump ou o subsídio de mobilidade. Nada disso. Foi mesmo um par de galhetas. O facto, que de si não traz nada de novo, parou o país (ir)real que se move nos meandros da bilhardice e da mesquinhez, do corrosivo emprenhar pelos ouvidos e pelas pressões vindas do além. Pôr um par de cornos é um clássico, levar com os pés também, por isso me admirei quando na casa de amigos muito próximos se falou do assunto ao jantar. Eu devia ser a única alienada do planeta, porque não tinha ouvido peva da história, mas um país inteiro a criticar o adultério em direto, ao vivo e a cores, fez-me ligar o aparelho esquecido na sala.

Fiquei preocupada. Muito. Nos dias seguintes, debates na televisão e na rádio, artigos de opinião em todo o lado, os comentadores de coisas sérias a falar do caso, edições especiais de programas, tudo à volta de um par de cornos. Que sociedade fantástica. Não me parece que ande toda a gente a praticar o adultério por essas esquinas, mas o espanto era tal que só me lembro de ver tanta gente à volta da televisão no 20 de Fevereiro.

Desliguei a televisão até ontem. Carreguei no botão a medo. Passava das 10 da noite e obriguei o meu corpo a resistir na cadeira onde eu aproveitava e trabalhava. Fiquei a ver o trio pelo canto do olho. A dada altura percebi que a vítima era o “encornador” narcisista, premiado pelos portugueses mais uma semana na casa onde tudo se sabe.

Dir-me-ia o Óscar que o crime compensa, pois claro. Trair em direto, querer tirar satisfações com a encornada e fomentar o escárnio com a nova aquisição, alimenta o país enquanto os preços aumentam e a mesquinhez corrói.

Levantei o corpo da cadeira e a alma do chão, aparvalhada pela sociedade que temos. Agora, encornar, ou diplomaticamente, trair, é aprovado por milhares de portugueses.

Porque não inventam um programa destes para maiores de 50, para podermos falar de dores no corpo, tendinites e algálias? Assim o Óscar, esteja lá onde estiver, vai poder rir com os olhos, como fazia por estes lados. Quanto a traições, não me parece que as houvesse em direto. Na cozinha, enfileiravam-se caixas de comprimidos e os segredos de cada um seriam esquecidos por causa do Alzheimer. Não dava audiências? Pois não, mas não vale tudo para manter shares e um país anestesiado à volta de um par de cornos.