DNOTICIAS.PT
Artigos

A Europa, incluindo a Madeira, poderá enfrentar um aquecimento global de 4 °C até ao final do século — e não está preparada!

De ano para ano, o impacto das alterações climáticas faz-se sentir de forma cada vez mais severa, com danos associados cada vez mais graves. Basta pensar que, só em 2025, na Europa, morreram mais 16 000 pessoas devido ao clima e registaram-se prejuízos estimados em 45 mil milhões de euros. Ou pensemos nas tempestades, intensificadas por um oceano cada vez mais quente, que atingiram Portugal continental este inverno e provocaram danos superiores a 6 mil milhões de euros.

Foi recentemente publicado um relatório do European Scientific Advisory Board on Climate Change (ESABCC) (https://climate-advisory-board.europa.eu/), que é um órgão independente da União Europeia (UE) criado para fazer o aconselhamento científico sobre políticas climáticas. O relatório do ESABCC (2026) destaca a necessidade de um esforço muito maior dos países da UE para a adaptação e proteção face às alterações climáticas, que já se fazem sentir atualmente e que se irão agravar no futuro, com impactos potencialmente muito graves.

Mesmo sob trajetórias otimistas de mitigação global, as projeções científicas mostram que os riscos climáticos se irão intensificar nas próximas décadas. Sem uma adaptação adequada, prevê-se que os riscos climáticos na UE atinjam níveis críticos em meados do século, trazendo impactos mais frequentes, mais graves, mais persistentes e de maior alcance.

O ESABCC estima que o mundo está atualmente numa trajetória que poderá levar, até 2100, a um aumento da temperatura global entre 2,8 e 3,3 °C acima do nível pré-industrial (ver Figura), ultrapassando claramente a meta de 1,5 °C e também o limite de 2 °C do Acordo de Paris. Na Europa, o aquecimento tem ocorrido duas vezes mais rápido do que a média global. Enquanto o aumento da temperatura global é atualmente de cerca de 1,4 °C, na Europa já atingiu aproximadamente 2,4 °C. Na avaliação do ESABCC, a Europa poderá chegar a um aumento de 3,8 a 4,3 °C acima do nível pré-industrial até ao final do século. É para este nível que devemos planear a nossa adaptação climática.

Com o aumento da temperatura global, espera-se também uma subida do nível do mar muito superior à prevista nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC). Vários estudos indicam agora que uma subida entre 2 e 3 metros poderá ser possível até ao ano 2100. Cientistas de diversos países redigiram recentemente uma carta aberta aos governos do norte da Europa, alertando para estes riscos. Sabe-se que os governos da Dinamarca e dos Países Baixos já criaram comissões encarregadas de estudar cenários de subida do nível do mar até 3 metros. O objetivo é avaliar que áreas poderão ser defendidas, que medidas serão necessárias e que zonas poderão ter de ser cedidas ao mar. As obras de mitigação necessárias para responder a estes cenários podem ser de grande dimensão, implicar investimentos muito elevados e levar mais de 50 anos até serem concluídas.

Madeira

Para adaptação aos impactes das alterações climáticas na Região Autónoma da Madeira, o governo regional preparou uma série de medidas, com base numa abordagem integrada de vários setores — agricultura e florestas, biodiversidade, energia, recursos hídricos, riscos hidrogeomorfológicos, saúde humana e turismo — que foram publicadas no relatório “Estratégia CLIMA-Madeira”, em 2015. Contudo, esta estratégia baseia-se no quarto relatório do IPCC (AR4), publicado em 2007. Assim, a “Estratégia CLIMA-Madeira” assenta em dados e modelos que têm hoje cerca de 20 anos ou mais, encontrando-se atualmente muito desatualizados. É, por isso, necessário que a revisão da “Estratégia CLIMA-Madeira”, iniciada em 2021, seja concluída com a maior brevidade possível.

Os riscos previstos para a Madeira são, em grande medida, semelhantes aos do continente: um aquecimento global que poderá atingir cerca de 4°C acima do nível pré-industrial e uma subida do nível do mar entre 2 e 3 metros até ao final do século, acompanhados por tempestades muito mais frequentes e intensas.

Importa salientar que a Madeira já sente atualmente os efeitos das alterações climáticas. A temperatura média anual no Funchal era de cerca de 18°C em 1970 e aumentou para 21,5°C em 2024 — uma subida superior a 3 graus — e, tudo indica que continuará a aumentar. Ondas de calor já levaram a que se atingissem valores extremos de temperatura do ar no verão de 2023, quando se registaram 38,7 °C no Funchal.

Ao mesmo tempo, a precipitação anual nas terras altas da ilha da Madeira — que fornecem quase toda a água para a costa sudoeste da ilha — diminuiu com uma média de 23,4 mm por ano no período entre 1970 e 2017, o que corresponde a cerca de 1100 mm no total (Espinosa & Portela, 2020, Water Resources Management). Importa salientar que esta diminuição corresponde a mais de um terço da precipitação média anual de 2900 mm registada no Chão do Areeiro entre 1961 e 1990. Se esta tendência de diminuição da precipitação se mantiver, poderemos assistir, a partir de agora e até ao final do século, a uma redução acumulada de cerca de 1755 mm, mais de metade da precipitação média anual de 2900 mm registada no Chão do Areeiro entre 1961 e 1990. Isso significaria uma disponibilidade de precipitação muito menor. Naturalmente, mais calor e menos precipitação resultarão num maior risco de incêndios florestais, cuja ocorrência já tem aumentado significativamente desde 2010.

Por fim, uma subida do nível do mar entre 2 e 3 metros poderá alterar profundamente as cidades da costa sudoeste da Madeira e do Porto Santo, atualmente pouco protegidas contra o mar. Sem a construção de defesas costeiras adequadas, poderemos ainda neste século ver a Sé do Funchal praticamente junto ao mar, e os centros históricos das cidades da Ribeira Brava, Santa Cruz e Machico inundados.

É evidente que a Madeira deve agir com urgência se quiser levar verdadeiramente a sério a adaptação às alterações climáticas.