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Crónicas

O Erro de Não Sentir

No recente Congresso Internacional de Educação Artística, organizado no Funchal, dei por mim, a certa altura, a dizer algo que não tinha preparado no discurso, mas que me pareceu importante para explicar porque estávamos ali reunidos, fora das nossas escolas: se não criarmos momentos de encontro entre profissionais da educação, corremos o risco de repetir práticas sem sequer dar por isso e de estagnar. Disse-o de forma instintiva, mas, refletindo melhor, é exatamente isso que estava em causa. As pessoas que ali estavam, vindas de dez países, incluindo os Estados Unidos da América e o Brasil, e de dezenas de municípios portugueses, não estavam por acaso. Estavam porque sentem que é necessário melhorar, para não ficarem presas a rotinas que já não respondem plenamente aos desafios atuais.

E talvez seja precisamente esta ideia, a importância do sentir, que ajuda a perceber melhor o problema. Veio-me assim à memória um exemplo conhecido do neurocientista António Damásio, no livro “O Erro de Descartes”. O autor descreve um paciente que, após uma lesão cerebral na área que processa as emoções, mantinha a inteligência e a lógica intactas. Conseguia analisar hipóteses e comparar cenários com grande rigor, mas era incapaz de tomar decisões simples do quotidiano. Faltava-lhe o “sentir”, aquilo a que Damásio chama marcador somático, o sinal interno que nos orienta e nos ajuda a escolher. Sem essa dimensão, a razão perde-se em possibilidades e não conseguimos tomar boas decisões.

No contacto diário com alunos, esta questão torna-se cada vez mais evidente. Muitos têm dificuldade em identificar e expressar o que sentem. Não é falta de inteligência nem de informação. É outra coisa. É não saber bem o que se passa dentro de si e, por isso, não conseguir traduzir isso em decisões. E isto é central, porque quem não consegue fazer esse caminho fica limitado. Pode saber muito, mas tem dificuldade em agir com clareza.

É aqui que, na minha opinião, as artes entram não como complemento, mas como parte essencial da formação. No caso da música, a questão é muito concreta. A música não se ensina em manuais nem se aprende a partir de uma lógica predominantemente teórica. Aprende-se a tocar, a ouvir, a experimentar. Em suma, aprende-se fazendo e sentindo. Por isso, continuo a achar que devemos abandonar definitivamente modelos de ensino demasiado presos a mesas, cadeiras e conteúdos abstratos. Uma aula de música deve ser prática, sensitiva e envolver os alunos na experiência musical, e não apenas em conceitos.

A música, tal como o desporto, é uma área de ação. No entanto, ainda persistem abordagens que a aproximam excessivamente de disciplinas mais teóricas, colocando os alunos sentados, atrás de mesas, com lápis e borracha, quando o essencial deveria ser colocá-los a fazer música e acima de tudo, a sentir. Na Madeira, temos insistido nesse caminho, um ensino artístico essencialmente prático, e os resultados têm sido claros, não apenas na qualidade dos alunos, mas também na forma como se envolvem nos projetos regionais e escolares. Importa, por isso, consolidar este percurso e garantir que as opções pedagógicas futuras reforçam aquilo que tem vindo a funcionar, evitando regressos a modelos menos ajustados à natureza da aprendizagem artística.

Rede Nacional de Conservatórios

Uma outra nota, ainda ligada a esta ideia de sentir, prende-se com um momento que considero particularmente relevante no contexto do ensino artístico em Portugal. A partir de 6 de abril, o Funchal recebe a reunião de uma orquestra sinfónica com cerca de 80 alunos provenientes dos conservatórios públicos portugueses. Durante uma semana vão trabalhar em conjunto e apresentar dois concertos: a 10 de abril, no Centro de Congressos da Madeira (Casino), e a 11 de abril, no Fórum Machico.

Importa sublinhar um aspeto que nem sempre é suficientemente valorizado: trata-se do único projeto em rede nacional do ensino artístico público. Num país onde tantas vezes as instituições funcionam de forma isolada, este encontro representa uma oportunidade concreta de articulação, partilha e construção conjunta entre alunos e escolas de diferentes regiões.

Mais do que os concertos, que certamente terão qualidade, importa valorizar este contacto entre alunos de diferentes regiões, a criação de relações e a construção de uma linguagem comum são aspetos decisivos para o seu percurso futuro e para a própria coesão do sistema de ensino artístico. Na prática, muitos deles serão os músicos de referência nas próximas décadas, e as redes que aqui se constroem terão impacto nesse percurso.

Da nossa parte, tudo faremos para que este momento tenha impacto e continuidade. Mas há um contributo simples que pode fazer a diferença que é a presença do público. Também aqui se confirma uma ideia essencial: há dimensões da aprendizagem que só se consolidam verdadeiramente na experiência, na partilha e no contacto direto com os outros. Vamos apoiar os jovens talentos portugueses que estarão no Funchal.

Festival da Canção Infantil

Uma última nota à margem. Aproxima-se o Festival da Canção Infantil da Madeira, um evento com uma longa tradição e que tem afirmado a região como um dos principais polos de criação de canções infantis nas últimas décadas. É já no próximo dia 18 de abril, às 16h, no Auditório do Centro de Congressos da Madeira. Garanta o seu bilhete e acompanhe este momento especial, que continuará a trazer novidades e a valorizar o talento dos mais jovens.