A Saúde Oral na Madeira: O Elo que nos falta
Diz a sabedoria popular que a saúde começa na boca. No entanto, ao olharmos para os dados recentes da saúde oral na nossa Região, parece que estamos a ler um manual de resistência. No passado dia 20 de março, celebrámos o Dia Mundial da Saúde Oral e, embora os números oficiais revelem esforço, denunciam também uma lacuna que não podemos continuar a ignorar com um sorriso amarelo. Os dados de 2025 indicam uma atividade intensa, com mais de 26.000 consultas nos centros de saúde e cerca de 2.000 no Hospital Dr. Nélio Mendonça. É um volume assinalável que demonstra o empenho dos profissionais no terreno. Contudo, surge uma ironia estatística que merece reflexão: segundo o Dr. João Teixeira, responsável pela Medicina Dentária do SESARAM, cerca de um quinto dos tratamentos realizados no serviço público foram extrações dentárias. Ora, num sistema que se pretende de excelência, o sucesso não deveria ser medido pelo que removemos, mas pelo que conseguimos efetivamente preservar.
Em 2025, segundo os dados da secretaria regional da saúde, foram realizadas 11.158 destartarizações e 5.906 restaurações. Mas as 2.456 extrações são o número que nos deve fazer parar para pensar. A extração é, com frequência, o último recurso de uma resposta que chegou tarde ou que não dispunha de alternativas. No entanto, o problema maior reside no que os números não dizem. A saúde oral não começa e termina nos dentes; ela estende-se às mucosas, à língua, às glândulas salivares, aos maxilares e a muito mais! É precisamente aqui que a ironia se torna preocupante: não temos estatísticas de patologias orais complexas, biópsias, acompanhamento oncológico especializado no SESARAM, número de apneias do sono causadas por desarmonia dos maxilares e tecidos moles, entre outras…, não porque estes doentes não existam, mas porque não existe atualmente a especialidade de Estomatologia para os diagnosticar, tratar e, consequentemente, contabilizar. O que não se mede, muitas vezes não existe para a gestão; mas para o doente, a dor e a gravidade são realidades diárias.
A Estomatologia, enquanto especialidade médico-cirúrgica, não é uma concorrente da Medicina Dentária — essa ideia nem sequer faz sentido clínico. É, sim, uma aliada natural e o suporte necessário para os casos que extravasam o dente e entram no foro da medicina holística. Desde que a Estomatologia fechou portas no serviço público regional em 2021, criou-se um abismo assistencial que a boa vontade, por si só, não consegue preencher. Falar do seu regresso é falar de cuidados vitais e diagnóstico atempado para doentes oncológicos, ou em tratamentos de quimioterapia ou radioterapia, onde uma boca saudável é a diferença entre conseguir alimentar-se ou enfrentar complicações severas. É falar do tratamento médico e cirúrgico das patologias dos maxilares e das articulações que retiram qualidade de vida a milhares de madeirenses. Sem a Estomatologia para dar resposta a esta patologia mais diferenciada, o hospital regional fica desarmado perante a complexidade, limitando-se o sistema, muitas vezes, aos cuidados mais básicos.
Não se trata de criticar o passado, mas de desenhar um futuro onde o SESARAM seja verdadeiramente robusto e capaz de responder a todos os graus de necessidade. O reforço de médicos dentistas nos centros de saúde é o pilar fundamental da prevenção e da proximidade, mas o hospital necessita da diferenciação que só a Estomatologia oferece para fechar o ciclo de cuidados. Integrar novamente esta especialidade no sistema regional não seria um custo adicional mas sim um investimento estratégico. Permitiria aliviar a pressão sobre outras áreas médicas e oferecer aos madeirenses uma resposta integral, pois, afinal, todos remamos para o mesmo lado: o bem-estar do doente. Investir na saúde oral é investir na saúde de todo o corpo e, para que esse investimento seja pleno, precisamos que a Estomatologia regresse ao serviço público. Só assim o sorriso dos madeirenses deixará de ser uma estatística de sobrevivência dentária para passar a ser o reflexo de um sistema de saúde moderno, completo e atento a todas as dimensões da vida humana.