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Crónicas

Ilha

Dizem que vivemos no paraíso. Dizem-no de copo na mão, à beira da piscina infinita de um hotel, de frente para um mar que não pagam ao litro, com a ignorância de quem confunde paisagem com justiça. O paraíso, pelos vistos, é um sítio onde a renda sobe, o salário encolhe, a carreira não avança, a casa foge e o jovem faz as malas com um sorriso de aeroporto para não estragar a fotografia da família. A ilha é bonita. Claro que é bonita. Como uma ferida pode ter boas cores ao pôr-do-sol. Também um precipício pode ser deslumbrante. Também a miséria, quando apanhada pela lente certa, parece pitoresca aos olhos de quem cá não fica depois do fim-de-semana. Ser ilha, aqui, não é ter mar à volta. Isso é conversa para vender pacotes. Ser ilha é viver com a sensação exacta de que tudo depende de uma distância que alguém decidiu normalizar.

O preço da passagem. O custo do transporte. O atraso do barco e a sua ausência. A mercadoria que demora. A contingência do aeroporto. A consulta fica longe. A oportunidade que exige saída. A saída que custa dinheiro. O dinheiro que não há. E depois ainda aparece um génio qualquer, muito penteado, a falar-nos de resiliência, uma palavra útil para quem governa mal. Chamar resiliência ao hábito de aguentar é uma aldrabice sem gravata, mas com gabinete. Nós conhecemos essa música. Quando falta, somos resilientes. Quando reclamamos, somos ingratos. Quando apontamos o atraso, somos negativistas. Quando denunciamos o absurdo, somos radicais. E quando nos calamos, quando nos calamos, somos o povo exemplar que eles gostam de mostrar nas cerimónias, de preferência atrás de uma bandeira, a bater palmas à sua própria falta de futuro. A Madeira é uma espécie de vitrina com palmeiras: por fora, ordem, sol, flores, turismo; por dentro, dependência, clientela, medo de perder o pouco que há. A eterna pedagogia da submissão, aquela catequese secular e muito nossa que ensina o cidadão a agradecer o que pagou, a aplaudir o que lhe devem e a chamar liderança à distribuição selectiva de favores. Isto não é Autonomia adulta. Isto, muitas vezes, é um regime de menoridade bem decorado. E o mais extraordinário, repare-se, é como se conseguiu vender esta encenação por tanto tempo. Uma terra com talento, trabalho, inteligência, coragem, tratada como se tivesse de viver eternamente entre a mesada e a vénia. Uma terra capaz de tanto, reduzida à função política de agradecer inaugurações, como se uma estrada com floreiras fosse o auge civilizacional de um povo de atlantes. Ser estas ilhas é crescer a ouvir que isto é o melhor lugar do mundo ao mesmo tempo que vemos os melhores a ir embora. É ouvir falar de sucesso económico quando conhecemos meia dúzia de grupos que engordam sempre e uma multidão que faz contas ao carrinho do supermercado como quem desarma uma bomba. É viver num lugar onde há carros de luxo suficientes para fazer crer que a prosperidade é geral, quando basta entrar em certas casas, certas ruas, certos silêncios para perceber que a opulência aqui é, muitas vezes, só a montra obscena da desigualdade. Há quem fale da ilha como destino. Eu falo da ilha como condição. A condição de quem aprende cedo que a geografia pesa no bolso. A condição de quem sabe que o continente nos olha, ou com exotismo ou com paternalismo, duas formas diferentes de desprezo. Ou somos a “Pérola do Atlântico”, essa coisa ornamental para discursos e brochuras, ou somos a periferia pedinte que deve comportar-se bem e esperar pela próxima decisão vinda de fora. Pelo meio disto tudo, nós, os vivos, os que cá pagam, os que cá ficam, os que cá enterram os seus, os que cá tentam fazer vida sem pedir licença à humidade e ao poder. E depois há o turismo. Essa religião laica da Madeira contemporânea. Tudo em seu nome. O trânsito em seu nome. A descaracterização em seu nome. A pressão urbanística em seu nome. A água em seu nome. O território em seu nome. O ruído em seu nome. A expulsão suave dos locais em seu nome. Não se discute o turismo, pois isso seria quase uma blasfémia institucional. Discute-se apenas quanto mais, quanto mais depressa, quanto mais caro, quanto mais rentável para os do costume. A ilha inteira transformada em cenário operativo para que outros descansem e nós trabalhemos sorrindo, de preferência sem fazer perguntas. Uma forma muito moderna de servidão: o empregado chama-lhe oportunidade, o governante, modelo de desenvolvimento, e o cidadão, se ainda tiver lucidez, chama-lhe o nome certo em forma de insulto. Mas a condição de ser ilha não é apenas económica. É também psicológica. É viver entre o amor pelo lugar e a claustrofobia do costume. É conhecer todas as curvas e, ainda assim, sentir que há corredores invisíveis por onde a vida não passa. É esta mistura de pertença e sufoco. De raiz e saturação. De orgulho e exaustão. Porque a ilha abraça, sim, mas também aperta. Protege, mas também limita. E quem nunca sentiu vontade de partir não percebe metade do que é pertencer verdadeiramente a um sítio. Há mães que viram seus filhos partirem. Há pais que fingem normalidade no aeroporto. Há avós que aprendem a dizer “videochamada” como se fosse uma palavra triste. Há casas em que o futuro passou a ser “alta-voz” para que todos ouçam ao mesmo tempo. Isto é ser ilha. Não a poesia do mar, mas a logística da saudade. Não o azul do céu, mas a matemática cruel das despedidas repetidas. E, no entanto, há algo na Madeira que resiste ao próprio abuso. Uma espécie de osso moral enterrado na rocha. Uma teimosia antiga. Uma dignidade que nem a propaganda consegue matar por completo. Porque esta terra não é só vítima dos que a governam mal nem dos que a vendem às postas. Esta terra é também uma reserva brutal de inteligência, memória e instinto. Há aqui gente que vê. Gente que percebe. Gente que já não engole a cantiga do costume. Gente cansada de ser figurante na própria terra. Ser madeirense, às vezes, é aprender a falar baixo para sobreviver e pensar alto para não morrer por dentro. É desenvolver um radar para a farsa. É reconhecer o cheiro da dependência mesmo quando ela vem perfumada com fundos, obras e festas oficiais. É saber que nem toda a autonomia é liberdade e que nem toda a obra é progresso. Porque autonomia sem emancipação cívica pode ser só um caciquismo com bandeira própria. E progresso sem distribuição é apenas crescimento para a fotografia do relatório. A ilha não precisa de mais bajulação. Precisa de mais verdade. Precisa de menos folclore político e de mais maturidade institucional. Precisa deixar de ser explorada como marca e passar a ser tratada como comunidade. Precisa de casas, salários, mobilidade, concorrência, liberdade e não desta ladainha balnear em que tudo está sempre a correr lindamente desde que não se olhe de perto. Eu não quero uma Madeira exibida. Quero uma Madeira respeitada. Não quero uma Madeira premiada com cliques. Quero uma Madeira onde um jovem possa ficar sem ser punido por isso. Não quero uma Madeira de slogans. Quero uma Madeira de possibilidades. Não quero uma Madeira a posar para o exterior enquanto se resigna por dentro. Quero uma Madeira adulta, difícil, livre, capaz de se olhar no espelho sem maquilhagem oficial. Porque ser ilha não é ser menos. Mas também não é aceitar tudo em nome da diferença. Não é transformar a distância em desculpa eterna. Não é chamar de destino ao que é uma má escolha política. Não é baptizar de fatalidade aquilo que tem responsáveis, nomes, assinaturas e interesses. Por isso, quando me vêm com a conversa do paraíso, eu sorrio, mas sorrio como quem afia uma faca. Porque sei o que custa este paraíso a quem cá vive inteiro. Sei quanto pesa a beleza quando a conta chega. Sei quanto dói amar uma terra que tantas vezes é governada como vitrina, explorada como produto e, por quem nela vive, sentida como pátria e prisão ao mesmo tempo. Ser ilha, aqui, é ter o mar como grandeza e limite, a Autonomia como promessa e farsa, o orgulho como herança e defesa, e esta raiva limpa, funda, atlântica, de quem se recusa a continuar a ser postal para os outros e sacrifício para si. Talvez a condição de ser ilha comece verdadeiramente aí, não na água que nos cerca, mas quando deixamos de aceitar que a beleza sirva de desculpa para a injustiça. Nesse dia, talvez a Madeira deixe de ser apenas um lugar cercado e, finalmente, comece a ser um povo em pé.