DNOTICIAS.PT
Análise

Refém da imprevisibilidade

há um problema estrutural de acessibilidade aérea. Um novo aeroporto tem de ser equacionado

A Madeira habituou-se a conviver com um aeroporto exigente. O problema é que o que antes era excepção transformou-se em padrão. Cancelamentos, divergências, regressos à origem e passageiros retidos deixaram de ser episódios pontuais para passarem a integrar um quotidiano que fragiliza a confiança no destino e penaliza directamente residentes e economia. Só este ano contam-se centenas de cancelamentos e dezenas de divergências, números que, mais do que estatística, traduzem uma falha recorrente de acessibilidade.

O Aeroporto Internacional da Madeira sempre foi tecnicamente desafiante. A pista, a envolvente montanhosa e os ventos laterais são factores conhecidos e estudados. Mas a questão central já não reside apenas na dificuldade operacional, mas na frequência com que essa dificuldade se traduz em falhas concretas. A resposta institucional tem sido insuficiente e ineficaz: planos de contingência limitados, ajustamentos operacionais e o recurso ao Porto Santo como alternativa pontual. Nenhuma destas soluções resolve o essencial. O Porto Santo implica custos adicionais, tempos de deslocação prolongados e uma logística que, em momentos de maior pressão, se revela exígua. Falta previsibilidade, e é essa previsibilidade que define a confiança de um destino.

Importa ainda afastar uma ilusão: a tecnologia, por si só, não resolve o problema da velha pista. Apesar da introdução de instrumentos mais precisos de medição do vento em tempo real, não existe garantia absoluta de aterragem em segurança. E a eventual revisão dos limites operacionais está longe de ser consensual. Muitos pilotos continuam a rejeitar o alargamento dessas margens, precisamente por razões de segurança. Ou seja, há um limite fundamental que não pode ser ignorado.

A conclusão impõe-se: a Madeira enfrenta um problema estrutural de acessibilidade aérea, que tenderá a agravar-se com o crescimento do turismo, a pressão sobre ‘slots’ e o impacto das alterações climáticas. Ainda assim, sempre que se levanta a hipótese da construção de uma nova infra-estrutura aeroportuária, o debate é rapidamente encerrado com o argumento do impossível. Mas a experiência recente da Região demonstra que o impossível é, muitas vezes, uma questão de decisão política, investimento e adaptação tecnológica.

Discutir um novo aeroporto não é um exercício de fantasia. É uma reflexão estratégica. A questão não é apenas quanto custa construir, mas quanto custa não agir. Quantos voos falhados, quantos turistas perdidos e quantos prejuízos acumulados são necessários para justificar um estudo sério e independente? Ignorar o tema não elimina o problema, apenas o adia. Continua por provar que não há mais nenhum local, na Madeira, com capacidade para receber um novo aeroporto.

Este debate cruza-se, aliás, com a decisão tomada na Assembleia da República sobre o novo modelo de mobilidade para as regiões autónomas. O diploma, que substitui o Subsídio Social de Mobilidade por um Mecanismo de Continuidade Territorial, introduz mudanças relevantes, incluindo a eliminação do tecto máximo no custo elegível das viagens. É precisamente aqui que subsistem as maiores reservas. A ausência de limites pode comprometer operações e o equilíbrio do sistema ou estamos perante uma chantagem inadmissível das companhias aéreas, com a easyJet à cabeça, às regiões autónomas?

O poder legislativo decidiu, está decidido. A todos pede-se bom-senso e não queiram continuar a fazer a rota Lisboa-Madeira uma das mais caras do mundo.

Apesar de tudo este processo evidencia um défice político. Numa matéria estrutural para a coesão territorial, impunha-se consenso e clareza. O que se verifica é muito ruído, divergência e falta de articulação. A ausência de liderança foi evidente na semana passada: Miguel Albuquerque distante, a líder do PS-Madeira silenciosa. Num tema desta dimensão, não basta reagir. Exigia-se visão estratégica e coordenação institucional.