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11 mulheres por semana são violadas em Portugal. Onze. A forma como olhamos para os números da criminalidade sexual diz muito sobre a sociedade que somos — e, talvez ainda mais, sobre aquilo que preferimos não ver. O Relatório da Administração Interna 2025, indica que em Portugal ocorrem 550 violações por ano, o que corresponde a 10 a 11 casos por semana. No contexto europeu, segundo o Eurostat, trata-se de uma taxa relativamente baixa — cerca de 5 a 6 casos por 100.000 habitantes, significativamente abaixo da média da União Europeia.

Parece que estes números sugerem que Portugal é um país mais seguro para as mulheres do que muitos dos seus pares europeus. Quando comparado com países como Suécia, França ou Bélgica, onde as taxas registadas são bastante superiores, Portugal parece ser menos grave. No entanto, esta leitura simplista ignora uma dimensão essencial: os números refletem apenas os crimes denunciados e registados pelas autoridades, não a totalidade dos crimes ocorridos por violação.

Impõe-se, por isso, uma reflexão entre todos: em comunidades mais pequenas e próximas, onde o anonimato é menor e as redes sociais são mais densas, será que as vítimas sentem as mesmas condições para denunciar? Medo, vergonha, dependência emocional, desconfiança nas instituições, inclusive na Justiça, e receio de exposição pública são fatores que contribuem para que muitos casos nunca cheguem ao conhecimento das autoridades. Em contextos e territórios com forte proximidade social, estes fatores podem ser ainda mais intensos.

Por outro lado, países com taxas mais elevadas podem não ser necessariamente os mais perigosos, mas sim mais eficazes na denúncia e no reconhecimento do crime. Sistemas legais mais abrangentes, maior sensibilização social e maior confiança nas instituições tendem a produzir números mais altos — não porque haja necessariamente mais crime, mas porque há menos silêncio. Talvez seria de pensarmos na educação para a prevenção e quando ela não funciona, criar uma cultura da segurança da denúncia.

Portugal encontra-se perante um aparente paradoxo: apresenta números baixos no contexto europeu, mas regista uma tendência de subida recente e enfrenta, como outros países, o desafio estrutural do silêncio da violência sexual. Perante este cenário, temos de ir para além da leitura estatística: estaremos perante uma realidade de menor incidência deste tipo de crime, ou os números relativamente baixos em Portugal refletem, sobretudo, uma menor propensão para denunciar?

Hoje uma mulher será violada, em Portugal. Amanhã será outra. Depois de amanhã, outra ainda. E assim se completa um ciclo — 11 violações — antes de tudo recomeçar na semana seguinte. Aqui e ali, fingimos que são apenas números. Mas não são. São pessoas. São filhas, esposas, jovens, meninas — vidas marcadas por uma violência que ninguém deveria sofrer. Do que sabemos, são 11 violações por semana. Quantas outras vítimas permanecem em silêncio, sem conseguir falar?