E tantos anos depois…
O orgulho de Santo António ficou ferido quando o governo juntou as companhias do Funchal e fez uma empresa nova
Eu tinha 10 anos quando me compraram o primeiro passe, uma cartolina com duas viagens e que dava para ir e vir da escola. Os bilheteiros, essa espécie de herói capaz de entrar e sair com o “horário” em andamento, ainda habitavam os autocarros da Companhia de Automóveis de Santo António e eram eles que riscavam o passe aos miúdos e ao povo que todos os dias enchia aquela frota desconjuntada.
O nome da empresa de transportes públicos de Santo António era bonito, mas as camionetas tinham problemas de vária ordem. Portas e janelas que não abriam (ou não fechavam) e, volta e meia, os travões acusavam o uso e o motorista via-se na necessidade de meter o autocarro à parede. Questões de menor importância para os passageiros que, todos ou dias, usavam o transporte para ir trabalhar, estudar, visitar doentes ao hospital ou fazer compras na cidade. E não havia pessoa em Santo António que não sentisse orgulho, que as outras companhias - e havia muitas - tinham pior fama.
Uma viagem de autocarro não era apenas isso, era um lugar de convívio, um espaço onde, entre esperas na paragem e desdobramentos, se falava da bola, dos preços e de política. E, por se cruzar todos os dias à mesma hora e no mesmo sítio, era comum ver nascer namoros ou saber de paixões não correspondidas. Não havia nada mais democrático, que chegasse a tanta gente, das classes trabalhadoras à classe média dos empregados de escritório, das lojas de roupa, dos bancos, professores e estudantes do que uma viagem entre a Avenida do Mar à porta de casa num autocarro Jamboto, via Santo António ou via Álamos.
O orgulho de Santo António ficou ferido quando o governo juntou as companhias do Funchal e fez uma empresa nova, que ia durar pouco, mas que virou a cabeça das minhas tias e da minha mãe quando colocou a circular um autocarros com poucos lugares sentados, cadeiras onde se fazia a viagem ao contrário e dava dores de cabeça. Os problemas de travões não se resolveram logo e até houve um acidente grande, a descer a Pena, com mortos, uma tragédia, que deu que falar.
E só caiu no esquecimento quando se inaugurou os Horários do Funchal e passamos todos a ter um passe com vinheta, que dava para fazer as viagens que se quisesse. O que calhou com a adolescência, o tempo em que comecei a ter autonomia para ir ao banho e ao cinema, além das aulas. Foi por causa do Passe Estudante e do Passe Jovem (que se comprava nas férias grandes) que passei dias inteiros no Lido, sem a minha mãe ter a desculpa do preço do autocarro. Eu e os outros todos que, por essa altura, no fim dos anos 80, ter carro ainda era um luxo.
A última vez que comprei um passe foi no ano 2000, poucos antes de me mudar da casa do Laranjal. Ainda era um passe de vinheta e o autocarro era cada vez menos um espaço de todos. Os tempos estavam a mudar, havia mais dinheiro e sonhos de ter casa e carro. Hoje uma viagem de autocarro é diferente, mesmo que o percurso seja o mesmo e demore os mesmos minutos. Quem segue viagem tem os olhos postos no telemóvel e poucas vezes levanta a cabeça para ver o que está para além da janela.