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Por trás da bruma

O Sol começa a desvanecer-se mas o laranja do deserto é ainda intenso. Estou sentado à janela. Após uma curta visita ao Abu Dhabi, o voo da Emirates é curto, duas horas rumo a norte. Mesmo assim, o serviço é impecável, um jantar e o vinho sul-africano fez sucesso, todos à minha volta o solicitaram. A degustação do Baco era um prenúncio, o que parece pode não ser. A noite chega e o avião inicia a descida. No fundo da consciência, um alerta soa e uma pergunta surge, “onde raio me vou meter?”. Pouco depois aterrámos em Teerão. Nessa altura não sabia, mas acabava de iniciar uma viagem tão intensa e ambivalente que jamais esqueceria, mesmo passados quase dez anos.

Obter o visto foi complicado, a passagem na emigração um rosário de perguntas, só aparentemente inócuas. Já sabia ao que vinha, tinha estudado bem a lição, lido e relido. Sabia que estava a ser observado, mas creio que eu observava ainda mais. Apreciei cada momento. Cada detalhe. O contraste com o rígido Abu Dhadi é imediato e absoluto. Ao contrário dos Emirados, no Irão vejo mulheres iranianas a trabalhar em todo o lado. Logo no aeroporto noto mulheres polícias, agentes de viagens, nos bancos e lojas. Estranho e entranho. Nem todas têm o cabelo coberto, o vestuário é relaxado. Já o esperava, mas não tanto.

A viagem que eu programara não era comum nos turistas ocidentais. Quis aprender a fazer comida persa, diferente e aromática, mas não tão intensa como outras; visitar parques de diversão e ruas populares; pequenas aldeias; bazares não turísticos, até uma igreja cristã. A agência que escolhera na Net era gerida por jovens, Fátima era a minha guia, um nome curiosamente comum no Irão.

É já madrugada, mas a caminho do hotel fica o túmulo do falecido Aiatolá Khomeini. E lá fomos visitá-lo. Se achei bizarro o túmulo de Lenine em Moscovo, este é mais ainda. E tive aí mais um choque de ambivalência. A personagem é idolatrada, mas cada vez menos amada. Quem viveu o distópico regime anterior do monarca Reza Pahlavi, imposto pelo governo americano, certamente compreende os motivos que levaram à revolução de 1980, mas muitos jovens têm agora outras prioridades, mais mundanas e ocidentais. O Irão é claramente uma sociedade em mudança. Duas gerações de iranianos, todos aqueles com menos de 40 anos, só viveram (e sobreviveram) após a revolução islâmica.

Num regime que permite ao povo eleger um presidente que gere o seu dia a dia, mas é o líder religioso supremo quem toma as decisões importantes.

Tem uma constituição islâmica, mas que reconhece direitos à minoria cristã, e inclusive à comunidade judaica, dando-lhes até lugar no parlamento. Ao mesmo tempo, tem uma mensagem de política externa anti-americana, que os estereotipa.

Poucos o sabem, mas os árabes são só 1% da população do Irão. A grande maioria são persas, falam a língua Farsi, um povo indo-europeu migrado das estepes da Ásia Central e da Europa dos Urais. Há 4 mil anos que é um povo incompreendido. O seu DNA é uma miscelânea. Foram invadidos pelo helénico Alexandre o “Grande”, por mongóis, otomanos e pelo Império Britânico. Vivem numa espécie de cruzamento entre a Rússia e a Arábia, entre a Turquia e a Índia.

A religião dominante é o Islão, mas no Irão escolheram a versão xiita, distanciando-se da esmagadora maioria dos muçulmanos. Seguem uma leitura algo paralela ao catolicismo, quando comparada com o protestantismo, em que o Aiatolá equivale ao Papa, em contraste com os sunitas que, tal como os protestantes cristãos, não têm um líder unificado. Esta escolha teve consequências algo amargas, quer dos vizinhos árabes sunitas, quer do poder reinante na Casa Branca. A guerra Irão- Iraque e os ataques da Al-Qaeda e do ISIS ao parlamento do Irão, são disso um exemplo. A atual guerra, é outro exemplo.

Na minha viagem as surpresas sucederam-se. Se esperava uma sociedade onde as mulheres são ostracizadas, como na Arábia Saudita, não encontrei. Uma sociedade estritamente teocrática, também não. Há festas pagãs como o equinócio, o Ano Novo iraniano. Uma parte da população, os zoroastrianos, são uma comunidade antiga, reconhecida oficialmente, tem uma forte identidade cultural pré-islâmica, ancestral e secular. A ambivalência iraniana no seu melhor.

Duas características dos iranianos relevaram-se. A simpatia e a hospitalidade do povo, o Taarof, como é conhecido e ensinado desde tenra idade. Outra, a valorização inusitada da arte, a sua, presente por todo o lado, muito importante para diferenciar o povo persa dos seus vizinhos árabes.

Muito aconteceu numa década. O Irão que eu conheci está diferente e para pior. Os jovens revêem-se menos ainda na teocracia que os governa. Ela esmagou com sangue o descontentamento. O presidente moderado que elegeram, não tem poder real. A maldade messiânica exportada pelo Irão equipara-se ao que os israelitas fizeram em Gaza e já não tem nada ver com os ideais da revolução. O poder agora é mais corrupto, cego e distante dos interesses do cidadão comum, características habituais de um poder ameaçado. Quer isto dizer que será fácil mudar á bomba este regime? Não creio. A par com a sua ambivalência, está também a sua resiliência, e aqui há em abundância.

A minha viagem matou os estereótipos que tinha. E por trás da bruma dos erros está a virtude de um povo e a riqueza de um país. No Irão, como noutros locais, o povo nem sempre merece os governantes que tem.