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Crónicas

O bom, o mau e a canga

A canga que antes limitava o corpo, agora dificulta a mobilidade

Procuram-se cartas em falta ao baralho constitucional. À Provedoria de Justiça falta um provedor. Ao Tribunal Constitucional faltam três juízes e, muito em breve, um presidente. Às autonomias faltam dois representantes da República. Até à Casa Civil do novo Presidente falta um chefe. Já para não falar da Comissão Nacional de Eleições, dos Conselho Superiores das Magistraturas e de outras entidades cuja eleição depende da Assembleia da República. Num país que sempre se queixou de tachos a mais, conseguimos a impensável transformação da fartura em fome.

O bom: Feira do Livro do Funchal

Há cidades que se explicam melhor entre livros. O Funchal é uma delas. Ano após ano, pelo menos desde 1974, a Feira do Livro assenta arraiais na cidade e invade-a com bancas, livros e escritores. Primeiro no Jardim Municipal, depois na Avenida Arriaga, a Feira tornou-se visita obrigatória para os mais pequenos, porto de abrigo para novos escritores e, mais recentemente, palco de criação e intercâmbio cultural. A Feira do Livro do Funchal é muito mais do que o nome esconde. É um investimento estratégico na cultura e na identidade da cidade. É lugar de promoção da leitura e do pensamento crítico dos mais novos. A Feira deixou de ser um evento e passou a ser um hábito. Daqueles que fazem a cidade e que se confundem com ela. O hábito de passear entre bancas como quem calcorreia as ruas do Funchal e a cada paragem descobre um livro. Durante estes dias, não se passa pela cidade sem passar pela Feira e acabamos por não distinguir uma da outra. Mas a Feira vive tanto do que mostra, como do que cria. O apoio à edição é uma das suas marcas mais relevantes. Este ano a programação oferece-nos 14 obras inéditas, das quais 10 serão lançadas em parceria e com o apoio da Câmara do Funchal. É um compromisso transversal com o livro: com quem os escreve, com quem os edita e com quem os lê. Talvez seja isso que torna a Feira do Livro do Funchal única. Não é só lugar de chegada dos livros, mas é também dali que muitos partem.

O mau: José Luis Carneiro

Há, na liderança de José Luis Carneiro, uma estranha sensação de efemeridade. A mesma sensação que perseguiu a breve passagem de Jaime Nogueira pela liderança do PSD, o mesmo espírito que assombrou o curto consulado de Seguro no PS ou a evidente precariedade da presidência de Sérgio Gonçalves no PS da Madeira. Cada um no seu tempo, cada um com a sua circunstância, mas todos condenados à indelével impressão de que estariam a guardar o lugar até que alguém quisesse, verdadeiramente, ocupá-lo. Talvez seja essa condição política de Carneiro - a de quem ocupa o lugar, mas não o preenche - que explica a sua recente viagem à Venezuela. Não faltarão boas razões para que um político português visite a Venezuela e a comunidade portuguesa que lá vive. Francisco Assis visitou um campo de refugiados venezuelanos no Brasil. Paulo Rangel foi até à fronteira terrestre da Venezuela apoiar a oposição a Maduro. Isabel Santos liderou a última missão europeia às eleições venezuelanas. Sebastião Bugalho resumiu-o bem: apesar dos partidos, havia, em relação à Venezuela, um caminho comum. Por isso, o problema não é a visita de Carneiro, é a forma como aconteceu. Em Lisboa, o PS alinha com a Europa, condena o regime venezuelano e acusa-o de ser autoritário. Em Caracas, as palavras amolecem, os encontros tornam-se cordiais e até há espaço para elogiar o ministro de um governo que mantém presos políticos e cuja legitimidade o próprio PS diz não reconhecer. A incoerência é difícil de disfarçar e impossível de explicar. Se a política também é perceção, então a única que me ocorre é que o líder do PS quer legitimar um regime que nenhuma democracia reconhece. Isto não é diplomacia e Carneiro não é Zapatero. É desorientação e um exercício de ingenuidade política. Resta saber se Carneiro percebeu o alcance do que fez. Se percebeu, é muito grave. Se não percebeu, ainda é pior.

A canga: Plataforma Subsídio de Mobilidade

Canga. O jugo sobre o pescoço do boi. Elevada, por Horácio Bento de Gouveia, a título de romance, foi a denúncia, censurada pelo Estado Novo, do regime de colonia imposto a muitos agricultores madeirenses. Trabalhadores de sol a sol, presos à terra que não lhes pertencia e sujeitos à vontade do senhorio. Entretanto, as benfeitorias dos colonos fizeram-se propriedade do solo, a colonia deixou de ser e a canga deixou de se ver. Mas há outras cangas que persistem. A mais recente surge no ecrã. Chamaram-lhe plataforma do subsídio de mobilidade. Não é a ideia que choca. Se ninguém imagina regressar à fila de uma repartição de finanças para entregar uma declaração fiscal, porque razão aceitaria voltar ao balcão dos CTT para receber o subsídio de mobilidade? A transição digital não é o problema. Nunca será. O problema é o resto. Os erros persistentes, a inoperacionalidade inesperada e sem razão, o aparecimento semanal de novos documentos obrigatórios. Fica a sensação de que somos cobaias de um sistema que, antes de funcionar, foi pensado para nos sujeitar. Se os colonos estavam presos à terra, madeirenses e açorianos são agora prisioneiros do procedimento administrativo. A canga que antes limitava o corpo, agora dificulta a mobilidade e transforma-a em favor, concedido com parcimónia e fiscalizado com zelo. Os senhorios mudaram e a canga já não é de madeira, mas pesa mais do que nunca.