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Meios que não justificam fins

O olhar sobre a morte depende da cultura, da religião, do contexto e da possibilidade de cada um lidar com a finitude da vida.

Ao pensar a morte, na cultura onde pertencemos e em contexto de perda de pessoas significativas, o nosso olhar leva-nos para dor, sofrimento, luto. Em Portugal há um negro associado à despedida e aceitação de uma nova realidade. Temos, contudo, vindo a herdar de outras culturas a cor branca como forma de olhar a morte como o fim de um ciclo, uma passagem para novos estados de ligação e conexão. Há quem chore, quem grite, quem cante, quem festeje, quem fique indiferente.

A morte coletiva proveniente de catástrofes, guerras, ou simplesmente opções políticas, torna os factos outra realidade. Um olhar mais distante, desconectado da dor e do sofrimento. Há quem lhe chame egoísmo ou hipocrisia, eu chamo proteção e sobrevivência. É insuportável tornar nossas todas as mortes do mundo.

Há culturas que aceitam a morte como uma passagem para algo melhor, não se focando na perda dos corpos, acreditando que hã mortes justificáveis e até necessárias.

Por tudo isto é tão difícil no mundo atual, onde tudo nos é tão próximo, perceber e aceitar a facilidade com que se provoca a morte individual e coletiva, em massa, a troco de jogos de poder e liderança. Percebemos que os líderes atuais com mais poder de decisão, são imunes à destruição humana, não revelando qualquer sentimento de empatia/compaixão pelas vidas interrompidas, nem pela dor provocada nos que ficam. Há uma insensibilidade crescente a comandar o mundo, muitas vezes legitimada e em nome da democracia.

Este narcisismo crescente, cada vez mais focado na conquista pela destruição, ignora valores essenciais da humanidade, nomeadamente os da proteção e continuidade da espécie. Está a ser delineado um caminho para a morte da espécie humana, pelo menos na forma como até agora a concebemos.

Há mais lutas pelo território do que pela qualidade de vida de quem lá habita, e não são só os líderes que seguem este caminho, quem os legitima e lhes oferece o lugar de poder, está com eles nesta tomada de decisão. Cada um a olhar para o seu umbigo, sendo o umbigo o lugar onde se retém o poder. Estamos numa sociedade obstipada de emoções, empatia e solidariedade. A civilização já esteve neste lugar e conseguiu evoluir adquirindo princípios e valores humanitários, mas talvez tenhamos chegado ao fim de um ciclo.

Acredito que temos em nós potencial de transformação e possibilidade de voltar a acrescentar aos ciclos de vida, independentemente da cultura, lugares de paz, crescimento e serenidade. Como? Há um trabalho de reflexão individual a fazer. Cada um de nós tem que se permitir pensar mais além do que defender o seu território, porque como estamos, a observar, só isso não chega.