A coragem de falhar
O erro não é um veredicto. É apenas informação.
V ivemos numa época estranhamente obcecada por objetivos. Tudo exige um plano, um método, um resultado mensurável. Queremos saber onde estaremos daqui a cinco anos, que carreira vamos construir, que versão ideal de nós mesmos deveríamos perseguir.
Mas a vida raramente segue cronogramas. Há uma verdade simples, ainda que desconfortável: ninguém aprende a viver sem falhar. Na realidade, ninguém cresce sem falhar. Na linguagem neurolinguística, o erro é apenas feedback.
Recebi há dias o livro Atreve-te a Falhar, da neurocientista Anne-Laure Le Cunff, publicado em Portugal pela Pergaminho. O livro defende uma ideia quase subversiva para o nosso tempo: talvez devêssemos experimentar mais.
Em vez de tentar controlar todos os resultados, poderíamos encarar a vida como um laboratório, um lugar onde tentativa e erro fazem parte do processo de aprender.
Na ciência é assim que o progresso acontece. Um investigador formula uma hipótese, testa, falha, ajusta e tenta novamente. O conhecimento nasce dessa sequência imperfeita. Na vida pessoal, porém, fazemos o contrário. Evitamos o erro como se fosse uma falha de carácter. É uma das causas de tanta gente ficar parada.
Le Cunff descreve um ciclo simples de crescimento: tentar, errar, aprender. Parece óbvio, mas muda tudo.
O erro deixa de ser um veredicto e passa a ser informação. Não define quem somos. Mostra apenas o que ainda não sabemos.
Muitas vezes adiamos o que deveríamos fazer. Nem sempre é preguiça. Pode ser desalinhamento interior.
Um modelo antigo, proposto pelo pedagogo suíço Johann Heinrich Pestalozzi, ajuda a explicar isso. A motivação nasce quando três dimensões se alinham: cabeça, coração e mão.
A cabeça pergunta: a tarefa faz sentido?
O coração pergunta: entusiasma-me?
A mão pergunta: sou capazes de a fazer?
Quando uma destas partes falha, surge a procrastinação. Não porque sejamos indisciplinados. Mas porque algo não está alinhado. É provável que a tarefa não seja importante. Ou não desperte emoção. Ou talvez ainda nos faltem competências. Perceber o que falta muda a forma como olhamos para o problema. Em vez de culpa, surge curiosidade e com ela a responsabilidade.
Se a cabeça não acredita na tarefa, talvez seja preciso repensar a estratégia.
Se o coração não se envolve, talvez seja necessário mudar a experiência.
Se a mão não consegue, talvez seja tempo de aprender ou pedir ajuda.
A diferença é subtil, e transforma tudo.
Num mundo que valoriza sobretudo resultados, a coragem mais rara pode ser outra: permitir-se experimentar. Não para acertar à primeira, mas para descobrir o que ainda é possível.
Há também uma ironia silenciosa nesta ideia de transformar a vida num laboratório. Lembrei-me logo da história da luz elétrica. Ilustra bem o que descrevi anteriormente. O inventor Thomas Edison passou anos a tentar criar uma lâmpada que funcionasse de forma estável. Testou centenas de materiais para o filamento e a maioria falhou. Cada tentativa mostrava apenas o que não resultava. Em 1879, depois de muitos erros, conseguiu finalmente produzir uma lâmpada incandescente durável. Quando lhe perguntaram sobre os fracassos, respondeu que não tinha falhado. Tinha apenas descoberto muitas maneiras que não funcionavam. É assim que o progresso acontece. Tentativa, erro, aprendizagem e nova tentativa. O profundo valor desta proposta não é viver a experimentar tudo, mas em aliviar o peso da perfeição. Porque o que realmente paralisa tantas pessoas não é a falta de talento, nem a falta de disciplina. É o medo de errar.
A astronauta Mae Jemison escreveu uma frase que devia ser um lembrete diário: não permita que ninguém roube a sua imaginação, a sua criatividade ou a sua curiosidade. Trata-se do seu lugar no mundo.
No fundo, viver é um processo de descoberta contínua. Uma sucessão de experiências imperfeitas que, pouco a pouco, nos aproximam da vida que realmente queremos viver.
Não importa quantas vezes caímos. Importa a forma como nos levantamos.
Porque a verdadeira coragem não é nunca falhar.
É continuar: mesmo depois de falhar.