Os dividendos ilusórios da guerra
O angustiante aumento do custo de vida prova que a guerra não gera prosperidade
A guerra não gera prosperidade. Mas cria ilusões. E assim, de cada vez que um conflito rebenta numa determinada região do mundo, há territórios distantes que parecem beneficiar de efeitos colaterais inesperados. Uns gabam-se do sucesso e outros aproveitam a oportunidade, enquanto der. A instabilidade no Médio Oriente está a provocar alterações nas rotas do turismo internacional e alguns operadores começam a desviar grupos para destinos considerados mais seguros. A Madeira está nessa lista alternativa, para gáudio dos que exibem satisfação com o hipotético aumento da procura. Só que a ideia de que uma guerra distante pode trazer vantagens duradouras a uma região como a nossa é, no mínimo, enganadora. E se é certo que os aparentes dividendos são imediatos e visíveis, todos já deviam saber que os custos são mais lentos, mais difusos e quase sempre mais pesados. Haja memória.
A história económica mostra tamanho impacto com clareza. Sempre que o Médio Oriente entra em turbulência, os preços da energia reagem. O petróleo sobe, os combustíveis acompanham a tendência e a inflação começa a infiltrar-se em tudo o que mexe. Aliás, a semana foi fértil em alertas e, pior, em aumentos de preços e em manobras de antecipação.
Num território ultraperiférico como a Madeira, onde praticamente tudo chega de fora, o efeito da guerra tem uma amplificação inevitável. E quando transportar pessoas e mercadorias fica mais caro, a factura acaba por ser paga pelos mesmos de sempre.
A crise chega num momento particularmente sensível. Muitas famílias ainda estão a lidar com prestações da casa significativamente mais elevadas do que há poucos anos. Ora, se a pressão inflacionista voltar a intensificar-se, o custo de vida pode tornar-se ainda mais insuportável. Nesse cenário, o aparente ganho trazido por alguns voos adicionais de turistas rapidamente se dilui no quotidiano de quem vive neste ‘cantinho do céu’. Mas há mais implicações. Os entendidos costumam avisar que o turismo que nos descobre por desvio geopolítico não é conquistado, nem seduzido, logo, é meramente circunstancial. Como não resulta de uma estratégia consolidada, nem de uma preferência estrutural do mercado, mas apenas de uma conjuntura de instabilidade noutros destinos, é natural que essa fragilidade desapareça com o tempo e que os fluxos regressem aos lugares predilectos e aos hábitos outrora adquiridos.
É por isso que os eventuais dividendos da guerra configuram ficção. Criam a sensação de prosperidade no curto prazo, mas assentam em bases frágeis e temporárias. Logo, construir expectativas sobre fenómenos efémeros é um erro que regiões pequenas e dependentes de factores externos devem evitar.
Se a Madeira quiser retirar alguma lição de mais esta incerteza com efeitos nefastos, em vez de alimentar ilusões deve focar-se na necessidade, tantas vezes repetida, de tornar a economia menos vulnerável às oscilações do mundo. Depender de crises alheias para sobreviver ou afirmar-se não é estratégia. É apenas uma circunstância mutável ou, pior ainda, desejar que o mundo continue em guerra.