O inhame: memória e futuro de um produto da terra
No norte da ilha, o concelho de Santana continua a concentrar uma parte significativa do cultivo de inhame. Mais do que um simples tubérculo, trata-se de um produto agrícola com enorme importância histórica, social e simbólica para a Madeira, embora hoje esteja cada vez mais ausente do quotidiano alimentar e da paisagem agrícola.
O inhame, sobretudo a variedade Colocasia esculenta (conhecida internacionalmente como taro), é uma das plantas cultivadas mais antigas do mundo. A sua utilização remonta a dezenas de milénios na região da Melanésia e continua a ser base alimentar para milhões de pessoas na África Ocidental, na Ásia e no Pacífico.
Durante a expansão marítima, os portugueses levaram esta cultura para várias ilhas do Atlântico. Na Madeira encontrou condições ideais: solos vulcânicos férteis, clima ameno e abundância de água. Segundo o Elucidário Madeirense, o inhame terá sido introduzido na ilha por volta de 1640 e rapidamente se afirmou como um dos pilares da alimentação popular.
Uma inscrição de 1710, na sacristia da Igreja de São Pedro, no Funchal, refere-se ao inhame como “maná da terra”. Durante séculos, juntamente com o milho e a batata-doce, formou o núcleo da dieta camponesa. Enquanto a economia oficial girava em torno do açúcar e do vinho, a sobrevivência diária de muitas famílias dependia sobretudo destes “produtos da terra”.
Relatos de viajantes estrangeiros confirmam esta realidade. George Forster, que acompanhou James Cook, descreveu as plantações de inhame nas zonas altas da ilha, observando que as folhas serviam para alimentar os porcos e as raízes para sustento dos camponeses.
Em tempos de crise, desde dificuldades económicas no século XIX até às restrições da Segunda Guerra Mundial, o inhame voltou a assumir um papel essencial. Muitos madeirenses recordam que, nesses anos, as panelas ficavam horas ao lume para cozer o tubérculo, garantindo alimento para toda a família.
Hoje, porém, a produção diminuiu drasticamente. Em muitas zonas da ilha o inhame sobrevive apenas em pequenos poios familiares ou cresce espontaneamente em terrenos húmidos. O seu consumo ficou praticamente associado à Semana Santa, quando tradicionalmente acompanha pratos de peixe.
Apesar deste declínio, o inhame permanece profundamente enraizado na cultura gastronómica e no imaginário popular madeirense. Expressões como “não me venhas tirar o inhame da porta” revelam bem o valor simbólico que este alimento teve durante gerações.
Recuperar e valorizar o inhame não é apenas preservar uma tradição agrícola. É também reconhecer um património alimentar que ajudou a sustentar a população da ilha durante séculos e que continua a fazer parte da identidade da Madeira.