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O Admirável Mundo Novo (e Digital) da Mobilidade Madeirense

Diz-se que a paciência é uma virtude, mas na Madeira de 2026, a paciência tornou-se um requisito técnico obrigatório, quase tão essencial como o Cartão de Cidadão ou uma conta bancária devidamente recheada para adiantar o que o Estado teima em “facilitar”. Assistimos, com o entusiasmo de quem espera por uma consulta de especialidade no SNS, ao nascimento da nova plataforma do subsídio social de mobilidade. E que parto, senhoras e senhores, que parto.

Numa era em que a inteligência artificial escreve poemas e conduz automóveis, a nossa mobilidade decidiu abraçar o “retro-futurismo”. O objetivo era simplificar? Com certeza. Mas, como bons latinos que somos, não resistimos a transformar uma linha reta num labirinto de Creta, onde o Minotauro é um erro de servidor e o fio de Ariadne é uma linha de apoio ao cliente que toca música de elevador ad aeternum.

A nova plataforma é uma obra-prima da engenharia da complicação. É preciso um mestrado em informática — ou, no mínimo, uma paciência de santo eremita — para navegar entre campos que parecem desenhados para nos testar a destreza digital. Prometeram-nos a desmaterialização, mas deram-nos a desmaterialização da nossa sanidade mental. Onde antes havia balcões e filas físicas (que, ao menos, permitiam o convívio e a partilha de indignação coletiva), agora temos o vazio de um ecrã que nos diz “ocorreu um erro inesperado”. Inesperado para quem, exatamente? Certamente não para o passageiro, já habituado a que o “digital” seja sinónimo de “obstáculo com Wi-Fi”.

E, no meio deste caos de ecrãs bloqueados, surge o espetáculo da comédia política. É quase comovente observar o PS-Madeira erguer-se em coro de indignação contra as falhas da plataforma. Criticam o atraso, fustigam a burocracia e apontam o dedo com o vigor de quem acabou de descobrir o conceito de insularidade. Esquecem-se, por conveniência ou lapso de memória coletiva, dos oito anos em que estiveram sentados nas poltronas do Palácio de São Bento. Oito anos em que a mobilidade foi tratada como um dossier de somenos, onde as soluções foram prometidas, adiadas e, finalmente, deixadas em “banho-maria” para que os próximos resolvessem o puzzle. Ver o PS criticar hoje a lentidão de um sistema que não tiveram a audácia (ou a vontade) de reformar em quase uma década é, no mínimo, um exercício de equilibrismo retórico digno de um circo de primeira categoria.

O passageiro, esse, continua a ser o financiador involuntário da infraestrutura nacional. Adianta o valor da passagem — que, a avaliar pelos preços da TAP em época alta, equivale muitas vezes a um rim ou a um sinal para um T1 no Caniço — e depois inicia a peregrinação para reaver o que é seu por direito. A plataforma não é um facilitador; é um porteiro zeloso e ligeiramente míope que nos barra o caminho com exigências redundantes.

Resta-nos esperar que, na próxima atualização do sistema, incluam uma funcionalidade realmente útil: um botão de “Enviar Paciência” ou um assistente virtual que nos peça desculpa de cinco em cinco minutos. Até lá, continuaremos a clicar, a anexar PDFs com nomes infinitos e a rezar para que o algoritmo seja mais benevolente do que o sistema que o criou.

Afinal, na Madeira, voar é um direito, mas conseguir o reembolso é, claramente, uma arte... e uma duríssima prova de resistência política.