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Universidade e sociedade

Falar da investigação na Universidade da Madeira é falar, em rigor, do futuro da própria região

Durante muito tempo, olhou-se sobretudo para a universidade como um lugar de aulas, de exames, de diplomas e de qualificação profissional. Tudo isso conta, evidentemente. Mas não chega. Uma universidade que ensina e que certifica, sem produzir conhecimento novo e sem o devolver à comunidade que a sustenta, fica aquém daquilo que dela é esperado. Foi essa, no fundo, a questão colocada nesta emissão do Peço a Palavra, dedicada à investigação na Universidade da Madeira e ao impacto que ela pode ter para lá dos muros da academia.

A pergunta parece simples, mas é tudo menos superficial. Para que serve a investigação feita na universidade? Apenas para cumprir metas internas, alimentar indicadores e engrossar currículos? Ou deve também contribuir para resolver problemas concretos, apoiar políticas públicas, melhorar práticas e criar valor económico e social? Quando tanto se fala de inovação, talvez valha a pena regressar ao essencial. Quando a ciência é financiada, direta ou indiretamente, com recursos públicos, não pode bastar-se a si própria. Tem de encontrar formas de regressar à sociedade sob a forma de conhecimento útil, reflexão crítica, progresso técnico ou melhoria das condições de vida.

Na Madeira, esta questão adquire um significado ainda mais evidente. Numa região insular, com limitações estruturais conhecidas e uma escala própria, a universidade não pode viver fechada. Tem de conhecer o território em que se insere e estar à altura das suas necessidades, como tem feito. Isso não significa reduzir a investigação a uma lógica utilitária nem pedir à ciência respostas imediatas para tudo. Significa, isso sim, reconhecer que a liberdade de investigar é tanto mais valiosa quanto maior for a sua capacidade de iluminar a realidade e dialogar com ela. Da economia azul à sustentabilidade, da saúde à tecnologia, da educação à cultura, há um vasto campo em que a Universidade da Madeira pode afirmar-se como agente de desenvolvimento.

Os dados nacionais mostram, aliás, que esta discussão não é meramente teórica. Portugal tem vindo a reforçar o investimento em investigação e desenvolvimento, e as empresas assumem hoje uma parte crescente desse esforço. Ao mesmo tempo, o país apresenta bons indicadores em matéria de colaboração científica entre universidades e o setor empresarial. Convém, porém, não tirar conclusões apressadas. Continuam a existir fragilidades sérias na transformação desse conhecimento em inovação disseminada, em patentes, em escala produtiva e em impacto económico duradouro. Em muitos casos, a ligação entre a ciência e o tecido empresarial existe, mas permanece insuficiente, irregular ou excessivamente concentrada.

É por isso que falar da investigação na Universidade da Madeira é falar, em rigor, do futuro da própria região. Uma universidade relevante não apenas acumula produção científica, tem de conseguir fazer dessa produção um instrumento de qualificação coletiva, de modernização económica e de pensamento estratégico. O mérito deste programa esteve precisamente em recentrar o debate nesse ponto. A ciência não é um luxo, nem uma atividade periférica reservada a especialistas. É uma das formas mais sérias de preparar o futuro. E numa terra que tantas vezes se confronta com os limites da sua condição ultraperiférica, essa não é uma ambição acessória. É uma exigência.