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Análise

Vergonha nacional

O país que vota este domingo merece mais Estado, carácter e decência

O País que este domingo vai a votos - para escolher um Presidente, ou talvez mais do que a real razão do sufrágio - está despedaçado, ferido, exposto e, sobretudo, envergonhado. Isto porque cumpre o ritual democrático de forma solene, mas falha no essencial, ao descurar durante dias a protecção dos seus cidadãos e ao vacilar na resposta à emergência. Vota-se como se estivesse tudo normal. Mas não está.

Envergonha-nos um País com decisores insensíveis, incapazes de perceber que governar não é reagir tarde, nem prometer pouco para cumprir menos. Envergonha-nos um Estado que parece sempre surpreendido com o risco previsível, que trata as tempestades como fatalidades e não como fenómenos para os quais se planeia, previne e responde.

A incapacidade em lidar com situações críticas não é fortuita. É estrutural. Repete-se. Manifesta-se na demora em tudo normalizar, na descoordenação de respostas e na lentidão em chegar ao terreno. Mas mais grave ainda é a incapacidade em proteger os mais vulneráveis, os que vivem em zonas de risco identificadas, os que não têm margem financeira para esperar, os que dependem de decisões públicas para reconstruir a vida. A estes, o País responde com burocracia, com promessas vagas e com apoios ridículos. Ciclicamente prometem-se milhões que não chegam. Anunciam-se mecanismos que não funcionam. Exige-se paciência a quem ficou sem nada. O tempo do Estado não é o tempo do povo contribuinte e sofredor e de quem precisa de um tecto, de água, de electricidade e de segurança. E essa desadequação não é técnica. É moral.

Envergonha-nos também a atitude miserável de alguns que, tendo contratos milionários com o Estado, concessões públicas, benefícios fiscais e garantias várias, não se chegam à frente na hora de reconstruir e repor a normalidade. Há empresas que vivem da obras públicas, mas que quando são necessárias deixam os cidadãos a pagar o preço total da catástrofe.

Num País sério, a solidariedade não é um slogan de circunstância, nem um donativo simbólico para a fotografia. É uma obrigação proporcional à dimensão do privilégio. Logo, quando a reciprocidade não acontece, o problema económico passa a ser ético.

Tudo isto acontece porque Portugal tarda em fazer o que lhe compete há décadas, desde o planeamento sério ao ordenamento do território responsável, das políticas de prevenção consequentes ao investimento contínuo na protecção civil e na resiliência das comunidades. Não se trata de desconhecimento, mas de escolhas e quem opta por adiar, remendar, ignorar, relativizar e aceitar o risco como custo político aceitável, apenas perpetua uma incompetência assustadora.

O País que vai a votos este domingo é pobre. Sobretudo de espírito porque pouco exigente e com sentido de comunidade duvidoso. Normalizar o inaceitável e agradecer o mínimo como se fosse uma dádiva divina; absolver a ausência de Estado e desculpar a falta de carácter na decisão pública, indicia falta de rumo. Eleger um Presidente não resolve, por si só, a fragilidade estrutural, mas é o que hoje importa. Até porque a vergonha comprova que quase tudo voltou a falhar.