Quem quer divorciar-se da IA?
A estratégia de assunção da IA no ensino superior deve olhar para o sistema de educação universitária e assumir e promover a mudança com a imprescindível ajuda aos envolvidos nomeadamente os professores que terão de se reinventar
Em outros tempos, e sobre histórias que não acabam bem, a questão era sobre quem queria casar com a Carochinha mas hoje a minha pergunta é sobre quem quer divorciar-se da Inteligência Artificial (IA).
Levanto este tema na sequência de um manifesto de um conjunto de professores universitários que foi tornado público a meados de janeiro em que era defendida a proibição da IA generativa nas universidades e politécnicos portugueses. Confesso que, ainda que respeitando a opinião dos autores e reconhecendo a oportunidade que a iniciativa deu para a discussão pública multinível e multissectorial, fiquei atónita e só me lembrei da imagem de alguém a tentar proteger-se de uma onda de 20 ou 30 metros da Nazaré com as mãos e sem qualquer meio adicional.
Reconheço que a situação atual e o potencial de crescimento da IA vai afetar-nos a todos e que não advirão apenas coisas boas. Os impactos previstos – por exemplo a alteração de certas profissões como a de analistas e consultores, o impacto energético fruto do recurso anormal à eletricidade e para o qual os sistemas não estão preparados e a utilização das potencialidades da IA para usos indevidos e até ilegais – serão bem maiores que a introdução das máquinas de calcular, que o surgimento da internet e dos telemóveis inteligentes a que assistimos, mas, a meu ver, a solução, e muito menos na educação, pode passar pela proibição e por distanciar-se de um contexto global que evolui a uma velocidade estonteante.
O desafio é exatamente fazer o contrário. É assumir que a IA existe, estudar o potencial da mesma para cada área de atividade e lutar – definir estratégias, promover e envolver, desenvolver e financiar projetos – pela sua integração literalmente em todas as áreas: educação, saúde e setor social, justiça, empresas, desporto, etc.
É óbvio que como em todo o processo de inovação disruptiva e de transformação, haverá sempre medo, dor e um custo associado e os professores do ensino superior não serão imunes a isso pois a IA obrigará a uma alteração do processo pedagógico, ético e social. Não sendo especialista na área, mas como mãe de dois jovens e pelas pequenas experiências que já tive no ensino superior, atrevo-me a dizer que a formação universitária que era centrada no ensino e memorização conteúdos, na resolução de problemas, e focada no papel técnico e científico do professor passará para a orientação do pensamento crítico; pela avaliação da compreensão dos temas, pela promoção salutar da interação homem-IA e pela assunção de que um docente não é só transmissor de conhecimento mas que também uma função orientadora e ética.
Para que tal se verifique é necessário que o ensino superior português lidere, de preferência de uma forma agregada, uma estratégia para a adoção da IA de preferência alinhada com a Estratégia Nacional de Portugal para o desenvolvimento e adoção da inteligência artificial até 2030 e que inclui o fortalecimento da investigação em IA no ensino superior e em centros de I&D, a formação em IA e em áreas digitais na população ativa e em todos os níveis de educação além do crescimento económico e da inovação, da promoção da literacia digital e o uso ético, transparente e responsável da IA e a modernização da Administração Pública.
A estratégia de assunção da IA no ensino superior deve olhar para o sistema de educação universitária e assumir e promover a mudança com a imprescindível ajuda aos envolvidos, nomeadamente os professores que terão de se reinventar. Estes têm de ter acesso a meios como por exemplo i) formação avançada que vai muito mais além do que o domínio do “ChatGPT”, e que passará por aprender a integrar a IA nas metodologias de ensino e nas avaliações; ii) como o acesso a uma infraestrutura tecnológica institucional segura, integrada e compatível com outras ferramentas já existentes nomeadamente de suporte à atividade como o Moodle; iii) como a criação de um quadro institucional ético e regulatório e iv) como o estabelecimento de um plano de ação multidisciplinar e suportado com o trinómio da pedagogia, tecnologia e ética pois cada professor pode ter um domínio sobre a sua área mas isso não será suficiente para o que é necessário implementar.
Suponho que a IA é uma acelerada inevitabilidade e que desta vez a tecnologia na educação não veio como inovação incremental e para suportar processos, mas sim para desconstruir a forma como se produz e transfere o conhecimento. Deste modo, e apesar dos receios e das dificuldades, parece-me que divorciar-se, não querer assumir o óbvio nem adaptar-se a isso quando, segundo um estudo do INE referente a 2025, 76,5% dos jovens entre os 16 e os 24 anos em Portugal já a usam, é irresponsável e deveras preocupante.