A música entre nós
Existem muitos paralelismos entre relacionamentos humanos e a música, enraizados tanto na biologia como na psicologia humanas, uma vez que ambos servem para promover ligações, expressar emoções e criar significados compartilhados. A música, apesar de não ser estritamente aquela “linguagem universal” badalada, funciona como uma linguagem emocional não-verbal que reflete a intensidade, o ritmo e a dinâmica estrutural dos relacionamentos e do amor em si.
Neste sentido, existem semelhanças estruturais, tais como o ritmo e a cadência, implicando ritmos naturais, (batimentos cardíacos) e os ciclos previsíveis do desenvolvimento do relacionamento. Também no que diz respeito aos aspetos estruturais: a harmonia e coesão formal na música espelham os diferentes aspetos de um relacionamento, nomeadamente confiança, paixão e comunicação. Um relacionamento “harmonioso” em que são partilhados os valores e gostos equivale à noção da consonância e equilíbrio na música. Tal como na música existem suspensões e dissonâncias que duma forma geral se resolvem com alguma previsibilidade, nos relacionamentos de sucesso acontecem também momentos de atrito, mas que são ultrapassados aprendendo com erros e mantendo a comunicação.
A música em si e as atividades comuns ligadas a ela (audição, dança, canto, criação) providenciam ferramentas para regular as emoções. Ouvir música em companhia pode reviver memórias emocionais e as atividades relacionadas catalisam e fortalecem a ligação entre os parceiros.
E ainda, partilhar atividades musicais promove a sincronização, uma vez que, ao alinhar corpos e cérebros, cria-se uma sensação de unidade e atenção partilhada. Essa partilha, parecida com a maneira de partilha de detalhes pessoais e íntimos, é um sinal de compatibilidade, que comunica valores e atitudes em comum.
Partilha-se também o prazer que emana tanto da música como do amor, através do sistema de recompensa cerebral em que se ativam regiões cerebrais semelhantes, que libertam dopamina, o químico do “bem-estar”.
A música faz parte da evolução humana desde sempre, começando com a voz e os ritmos e sons internos do corpo materno ainda antes do nascimento. Acompanha-nos ao longo do nosso crescimento e formação de relacionamentos com outras pessoas. Sobretudo nos relacionamentos amorosos, numa fase de atração, portanto nos estágios iniciais e apaixonados, a música é frequentemente usada para sinalizar atração e avaliar compatibilidade. A seguir, a atividade musical partilhada pode ajudar no aprofundamento das ligações e na formação duma identidade partilhada.
Já em relações de longo prazo, a música, embora talvez com menos impacto imediato, pode funcionar como uma reguladora emocional e defensora da intimidade.
Não obstante todos estes paralelismos, é necessário sublinhar que a música, sendo um fenómeno artístico e cultural, é um produto inerentemente acabado (embora os intérpretes possam discordar) enquanto que qualquer relacionamento humano, e sobretudo o amoroso, requer evolução contínua para sobreviver (pois neste, e em vários outros contextos, a estagnação equivale a um estado de entropia). Por outro lado, embora a música possa ser apreciada repetidamente sem a necessidade de mudança da música, não quer dizer que a atitude e a apreciação por parte do ouvinte não evolua, tal e qual como acontece num relacionamento.
Concluindo, a música representa uma metáfora para a vida, acompanhando com o seu fluxo em tempo real os mais variados segmentos da nossa vida (não posso deixar de mencionar aqui um exemplo do género mais literal e carnal possível, o filme “10” e o “Bolero” de Ravel). Sendo a nossa companheira íntima e vitalícia, aquela que escolhemos ouvir torna-se propriamente o espelho da nossa vida. Deste modo, atua como uma linguagem vital e emocional, proporcionando uma maneira de navegar pela experiência humana.