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Quando as tensões geopolíticas fecham os nossos postos de trabalho

Cerca de 2.500 trabalhadores da fábrica da Bosch, em Braga, foram despedidos no contexto da atual crise da indústria automóvel europeia, agravada pelo conflito entre atores holandeses e chineses em torno do controlo da empresa de semicondutores (chips), Nexperia. A Autoeuropa também não descarta impactos decorrentes desta instabilidade. Estes semicondutores, essenciais para funções como abertura e fecho de portas e janelas, iluminação, ou operação dos airbags, tornaram-se componentes vitais nos veículos modernos, colocando a China numa posição central da cadeia logística global.

Numa altura marcada por tensões comerciais internacionais, torna-se difícil para muitos portugueses compreender como estas dinâmicas globais afetam o quotidiano nacional. Os trabalhadores despedidos da Bosch, infelizmente, saberão melhor que ninguém. Por isso, é preocupante que os debates eleitorais ignorem temas de política externa na sua verdadeira profundidade. Tanto os candidatos presidenciais, como a comunicação social, deveriam assumir o compromisso de abordar estratégias internacionais que definam o futuro de Portugal. O Presidente da República possui um papel relevante nesta dimensão, muito mais determinante do que grande parte dos temas atualmente discutidos nos debates.

Um país que não procura posicionar-se no plano geopolítico limita-se a sofrer os efeitos de decisões externas. A Base das Lajes, nos Açores - onde os Estados Unidos, e até a França, têm reforçado atividades - representa um instrumento valioso de negociação para a defesa dos interesses nacionais. A influência acrescida de Portugal, em Bruxelas, reforçada pela presidência de António Costa no Conselho Europeu, deveria ser igualmente considerada.

A indústria automóvel está longe de ser a única dependente de chips chineses: a eletrónica de consumo, os equipamentos médicos e os sistemas de defesa são outros setores vulneráveis. A guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos, no âmbito da ‘corrida’ à inteligência artificial, desencadeou represálias chinesas cujos efeitos já atingem a Europa, levando mesmo o primeiro-ministro alemão a defender políticas protecionistas. Embora os semicondutores chineses ainda dependam das máquinas de litografia produzidas pela empresa holandesa ASML, esse equilíbrio poderá alterar-se com os desenvolvimentos tecnológicos da Huawei, o que aumentará o poder negocial da China.

Uma política externa estratégica pode mitigar estes riscos, promovendo a diversificação de fornecedores e a criação de alianças que reforcem a resiliência das empresas portuguesas. Portugal não pode continuar a observar, à distância, uma disputa geopolítica que já está a destruir empregos e a fragilizar sectores estratégicos da nossa economia. É tempo de exigir que a política externa deixe de ser um rodapé nos debates nacionais. Sem uma estratégia clara, corremos o risco de ver multiplicarem-se casos como o da Bosch - não por decisões tomadas em Lisboa, mas por forças externas que decidimos ignorar.