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Turismo q.b. (quanto baste)

A ilha da Madeira sempre foi apresentada e conhecida como um caso exemplar de sucesso turístico, dona de um destino seguro, paisagens únicas, muito sol, calor e desenvolvimento q.b. (quanto baste).

O turismo tornou-se, legitimamente, e desde sempre o principal motor da economia regional, criando emprego, investimento e projeção internacional. No entanto, começa a emergir uma certa tensão estrutural e relacional entre quem nos visita e quem habita. Os locais começam a sentir que a prosperidade trazida pelo turismo tem um custo social e territorial que já não pode ser ignorado.

O fenómeno do excesso de turismo, é sem dúvida um fenómeno emergente, manifestando-se de forma particularmente visível em zonas como a zona da velha da cidade do Funchal, freguesias circundantes, o Caniço ou determinadas freguesias junto à costa e solarengas onde o alojamento local, os restaurantes e os bares proliferaram.

O mercado imobiliário percebeu a oportunidade e oferece talvez o sinal mais evidente, casas que antes estavam destinadas a arrendamento de longa duração ou disponíveis para venda a residentes, foram convertidas em unidades de alojamento local, ou seja, alojamentos de curta duração, mas de elevada rentabilidade económica ou em alternativa, colocadas no mercado a preços incomportáveis para a realidade portuguesa. O resultado é uma redução da oferta habitacional para quem vive na região, acompanhada de um aumento abrupto das rendas e dos preços de compra. Chegamos ao caricato de nos baterem à porta a perguntar se temos alguma casa ou apartamento à venda no local, isto é inadmissível!! E é neste cenário que os jovens madeirenses, mesmo com emprego estável, não conseguem competir, forçados a adiar projetos de autonomia, e acabam por permanecer na casa dos pais à espera de melhores dias e soluções, vendo os seus sonhos serem novamente adiados.

Mas a pressão não é apenas habitacional, todas as infraestruturas urbanas, transportes, estacionamentos, recolha de resíduos, acesso a serviços de saúde foram “incomodados”, o que foi projetado e dimensionado para uma população residente muito inferior à população flutuante que agora serve. Em épocas altas, nesta altura já se nota que é de janeiro a dezembro, há uma sensação difusa de saturação, e de cansaço, filas, trânsito, sobrelotação de miradouros e trilhos, erosão ambiental em levadas e veredas. O que era património quotidiano e local transforma-se num cenário voltado para o turista mudando e alterando o modo de vida tradicional e autêntico. Há também uma dimensão cultural menos quantificável, mas não menos relevante. O comércio tradicional começa a ceder lugar a lojas orientadas para consumo turístico rápido, a restauração adapta-se, as festas tradicionais e práticas locais correm o risco de perder a autenticidade comunitária, tradicional e local. Quando a partilha do espaço vivido passa a ser preparado prioritariamente para quem chega, e não para quem cá está, instala-se um sentimento de desapropriação. É com alguma tristeza perceber que os tempos em que os turistas partilhavam alegremente as esplanadas com os locais está a acabar, seja pelos preços astronómicos, seja porque as mesas estão todas ocupadas e deixamos de ser bem vindos.

Importa, contudo, evitar revoltas ou avaliações simplistas ou hostis. O turismo não é um intruso externo, é um setor construído com participação local, responsável por milhares de postos de trabalho diretos e indiretos sendo o ganha pão de muitos dos locais e é quem mete a comida na mesa de muitas famílias.

Demonizá-lo seria economicamente irresponsável e socialmente injusto. A questão central não é “turismo sim ou não?”, mas que modelo de turismo e com que mecanismos de regulação.

Apercebo-me que algumas respostas começam a ser discutidas, os limites ao alojamento local em zonas já saturadas, incentivos fiscais ao arrendamento de longa duração, taxas turísticas canalizadas para habitação e manutenção ambiental, gestão de fluxos em trilhos naturais e levadas, no entanto continuamos a não dar soluções aos habitantes locais.

O desafio é gigante, manter o turismo em alta e por outro lado preservar a habitabilidade da ilha. Porque os madeirenses começam a sentir que a sua terra lhes escapa, economicamente, fisicamente e culturalmente, instala-se um desequilíbrio que nenhum crescimento estatístico (económico) compensa. Temos hotéis suficientes para bem receber e é essa a nossa função, pois é a experiência do destino no seu melhor.

A Madeira sempre foi uma terra de acolher, de bem receber, mas isso não pode significar, ceder em permanência, o direito de viver plenamente no seu próprio território. O futuro sustentável da ilha dependerá da capacidade de reequilibrar esta equação, garantir que o turismo continue a sustentar, mas sem sufocar quem mora na ilha. Este é um assunto que não podemos deixar para depois, é agora e já!!!