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Crónicas

O laboratório das máscaras

No Carnaval, a máscara não esconde, revela versões nossas que mantivemos em silêncio

Estava a fazer a cobertura do cortejo de Carnaval do Funchal quando outra jornalista me perguntou “porque é que as pessoas desfilam assim, nestas figuras?”

Continuei a observar a Avenida repleta de gente e pensei que a pergunta talvez estivesse formulada ao contrário.

Há quem diga que a máscara serve para esconder. Eu suspeito do contrário. A máscara não oculta, amplifica. No Carnaval, o diretor geral veste o pirata, a mãe exausta transforma-se em diva, o tímido surge como demónio coberto de lantejoulas. Ninguém deixa de ser quem é. Experimenta versões que, no resto do ano, mantém, de alguma forma, dentro do armário. A verdade pouco confortável é esta.

Passamos a vida a gerir personagens. A profissional competente, a mulher equilibrada, a mãe que não falha. O homem que protege, o pai exímio… Vestimos máscaras sociais para pertencer, para sermos amados, para mantermos o lugar. Fazemo-lo com tal mestria que, por vezes, esquecemos onde termina o rosto e começa o adereço.

A neurolinguística chamaria a isto mudança de estado. Um estado é a combinação de fisiologia, foco de atenção e linguagem interna que molda o que pensamos, sentimos e fazemos. Muda o corpo e muda o pensamento. Muda o foco e muda o comportamento. No Carnaval, a música acelera a respiração, o ritmo coletivo altera a postura, a fantasia expande o gesto. O cérebro acompanha. Neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina intensificam a motivação e a ousadia. O que chamamos libertação pode ser lido como uma mudança de estado sincronizada em massa.

Há também as submodalidades, os detalhes sensoriais que estruturam a experiência. Cor, brilho, som, volume, proximidade, textura, temperatura... O Carnaval exagera tudo. Cores saturadas, sons altos, contacto físico, cheiros intensos. Ao amplificar estes elementos, amplifica-se a emoção. O cérebro reage ao impacto sensorial com a mesma seriedade com que reage ao real imediato. A máscara deixa de ser apenas tecido e torna-se um gatilho de percepção.

A neurociência acrescenta outra camada. O nosso sentido de identidade é uma construção dinâmica, apoiada em redes cerebrais associadas à autorreferência e à narrativa interna, como a chamada default mode network. Em contextos de anonimato e pertença coletiva, essa atividade pode diminuir. A atenção desloca-se do eu para o nós. Surge a desindividualização, não como irracionalidade mágica, mas como priorização da coesão do grupo. A responsabilidade parece diluir-se quando a identidade se funde.

O Carnaval funciona assim como um laboratório moral. Durante alguns dias, suspende-se a hierarquia, relativiza-se a etiqueta, atenua-se o travão pré-frontal ligado ao controlo inibitório. O instinto ganha volume. A razão perde protagonismo. Não porque nos tornemos outros, mas porque reorganizamos temporariamente os pesos internos.

Há algo de ancestral neste rito. Antes de ser desfile foi uma transgressão organizada. As sociedades sempre souberam que o instinto reprimido não desaparece, infiltra-se. Permitir o excesso com data marcada é uma estratégia sofisticada de gestão do caos. Um acordo tácito. Libertem-se agora, regressem depois.

Só que a quarta-feira chega sempre. E cada experiência deixa traços neuronais. A neuroplasticidade é neutra. O cérebro aprende com o que fazemos, não com o que afirmamos ser. Cada repetição consolida padrões. O que fizemos quando ninguém conhecia o nosso nome diz algo sobre os circuitos que estamos a fortalecer.

A neurolinguística falaria ainda de identidade como um nível maior, reflexo de crenças, valores e comportamentos. Se a máscara nos permite testar novas versões, pode ser expansão ou fuga. A diferença está na consciência. Experimentar um papel pode revelar recursos adormecidos. Viver apenas no disfarce é confundir estado com essência.

Interessa-me menos julgar o Carnaval e mais perguntar que estados escolhemos cultivar e nutrir ao longo do ano.

Que narrativas reforçamos?

Que máscaras usamos em fevereiro que já usávamos em novembro?

Paradoxalmente, é na caricatura que mais nos aproximamos da verdade. A maturidade não exige rasgar todas as máscaras. Exige escolhê-las com clareza. Habitar os estados em vez de ser dominado por eles. Reconhecer que a identidade é maleável, mas que a responsabilidade permanece.

No fundo, o Carnaval é um espelho barroco. Deforma para revelar. A questão não é se usamos máscaras. Será que temos coragem de integrar, fora da folia, aquilo que a folia nos mostrou sobre quem somos quando acreditamos que ninguém está a olhar?