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Análise

Reféns de carros quando faltam casas

Na Madeira, fala-se de casas como se não houvesse amanhã. E, entretanto, continuamos a viver como se houvesse estradas para todos os carros que quem manda acha que deve pôr a circular. Queremos mais habitação, mais turismo e mais investimento. Só que o território não estica e a ilha não ganhou mais fajãs, por muito que a exiguidade de espaço seja tratada com ligeireza e desprezo. Como a Região é a mesma e a ambição de a encher parece não ter limites, o automóvel está assim a transformar-se numa das mais eficazes formas de prisão colectiva.

Paula Teles afirmou no DIÁRIO o que muitos preferem contornar, sugerindo que fosse proibido alugar carros a turistas que viajem sozinhos. A proposta é polémica, talvez excessiva, mas tem o mérito de diversificar a abordagem numa terra em que parece que cada turista tem direito a um carro, cada família precisa de mais um e cada problema de circulação se resolve com a esperança de que, por milagre, amanhã haja menos trânsito. A indústria cresce, as viaturas multiplicam-se e as estradas queixam-se em silêncio. Depois, culpamos o turista, o residente, o estacionamento, a hora de ponta ou a falta de civismo. Todos têm culpas possíveis, mas o modelo continua inocente.

Há um número que merece ser olhado sem ilusões. Por cada carro novo vendido na Região, vendem-se três usados. Não prova tudo, mas diz muito sobre uma economia em que o automóvel é simultaneamente necessidade, despesa e dependência. Aliás, para muitos madeirenses, não ter carro não é uma escolha ecológica, antes uma complicação logística. O transporte público nem sempre responde, as distâncias pesam e a geografia não facilita.

Assim se perpetua um círculo vicioso. Precisamos do carro porque as alternativas não dão resposta e estas tardam porque continuamos a organizar a vida à volta do volante. E ainda há quem chame liberdade a esta obrigação e modernidade à incapacidade de lhe escapar.

Enquanto isso, os entendidos discutem a crise da habitação como se o problema começasse e acabasse na porta de casa. Viver não é apenas ter um tecto. É conseguir chegar ao trabalho sem perder tempo, levar os filhos à escola, ir ao médico, fazer compras e regressar sem transformar cada deslocação numa expedição. Num território onde cada metro quadrado conta, e é uma fortuna, o lugar para o automóvel também tem um preço, mesmo quando não aparece na factura. Quem quer casas acessíveis, cidades habitáveis e turismo de qualidade, não pode tratar estradas e estacionamentos como se fossem recursos infinitos. Convinha meter na cabeça que quanto mais espaço é gasto para acomodar carros, menos espaço sobra para viver.

Não se trata de declarar guerra ao carro, nem de fingir que uma ilha montanhosa pode funcionar como uma cidade plana. Trata-se de acabar com a preguiça política de confundir mobilidade com circulação de viaturas. Mais carros não significam mais liberdade; mais estradas não garantem menos congestionamento; mais turistas não justificam que os residentes façam fila. Precisamos de transportes públicos que sejam uma alternativa real, de ligações eficientes, de gestão séria dos carros de aluguer e de coragem para tomar decisões que contrariem interesses instalados. Mais do que saber quantos automóveis ainda cabem na Madeira, convém perceber quanto da nossa qualidade de vida estamos dispostos a sacrificar para que continuem a caber. Até porque uma ilha não fica mais desenvolvida por ter mais carros. Fica é mais absurda quando precisa de um para quase tudo e, mesmo assim, já não consegue chegar a tempo e horas onde vive.