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Uma Região de excelência é aquela que deixa de adiar o presente
A Madeira tem talento, ambição e razões de sobra para acreditar no seu potencial. Em coro ou a solo, vozes de diversos quadrantes, umas mais sonantes do que outras, fazem saber que temos tudo, excepto ouro e petróleo, para dar que falar. Afirmarmo-nos como um pólo de criatividade, capaz de atrair investimento, inovar na saúde, diversificar o turismo, modernizar a economia e projectar-se no Atlântico como uma Região de excelência, não é uma utopia. Aliás, há projectos, iniciativas, estratégias e discursos que alimentam o sonho. Só que tudo se complica quando confrontamos o futuro anunciado com o presente que continuamos a oferecer. Estamos a transformar o potencial em qualidade de vida ou a tornar-nos especialistas em anunciar o futuro enquanto adiamos as soluções para o presente? Toda a gente sabe que a Região não se impõe apenas pela capacidade de atrair visitantes, captar investimento, organizar cimeiras, apresentar projectos inovadores, inaugurar obras milionárias ou celebrar os seus méritos e encantos. Mede-se também pela possibilidade de um jovem comprar casa, de uma família suportar as despesas mensais, de um trabalhador denunciar o assédio sem recear ficar desprotegido, de um cidadão obter respostas das instituições ou de um problema identificado há anos deixar finalmente de existir.
É precisamente neste confronto entre a vontade e a realidade que a semana noticiosa do DIÁRIO encontra um dos seus denominadores comuns. Enquanto se fala de inovação, a habitação continua a ser uma dor de cabeça, os juros do crédito agravam os encargos das famílias, os custos das deslocações ao continente condicionam a mobilidade e há problemas ambientais que resistem para lá dos prazos anunciados para a sua resolução. Na área laboral, os números das queixas de assédio levantam interrogações sobre a eficácia dos mecanismos de fiscalização. E quando uma entidade recebe denúncias sem que daí resulte qualquer processo de contra-ordenação, é legítimo perguntar se os instrumentos disponíveis estão a cumprir a finalidade para que foram criados.
Não se trata de exigir que todos os problemas desapareçam por decreto, nem de confundir uma denúncia com uma infracção provada. Mas é recomendável que as instituições funcionem, que as políticas sejam avaliadas e que os responsáveis expliquem resultados. A complexidade de um problema pode justificar que a sua resolução demore. Não pode é servir de justificação permanente para que continue por resolver.
Há, aliás, uma tentação recorrente na vida pública que insiste em confundir actividade com eficácia. Anunciar uma intervenção não é executá-la. Criar um programa não é alcançar objectivos. Aprovar uma estratégia não é mudar a realidade. E investir dinheiro, por si só, não demonstra que a aposta produziu o efeito pretendido. A distância entre o anúncio e o resultado é precisamente o espaço onde se devem instalar o escrutínio, a transparência e a prestação de contas.
A Madeira não precisa de abdicar da ambição, muito menos de diminuir a importância dos projectos que podem abrir novas oportunidades. Precisa, isso sim, de garantir que os sonhos não se transformem numa cortina de fumo sobre as dificuldades quotidianas. A inovação tecnológica vale mais quando melhora os cuidados de saúde; a criatividade ganha sentido quando cria oportunidades e trabalho qualificado; o turismo contribui para o desenvolvimento quando a riqueza gerada também beneficia quem cá vive; e a modernização da administração pública só se torna relevante quando o cidadão encontra serviços mais rápidos, respostas claras e menos obstáculos.
O verdadeiro progresso não deriva apenas daquilo que a Região consegue exibir ou dos prémios que conquista. Mede-se, sobretudo, pelo que muda na vida de quem a habita.
E talvez seja essa a distinção que importa fazer entre uma Madeira que quer parecer cada vez mais desenvolvida e um arquipélago que trabalha, de forma consistente, para que nela se possa efectivamente viver melhor. Uma legítima pretensão não exclui a outra. Pelo contrário, a segunda é a única forma de dar substância à primeira.
O futuro não pode ser apenas uma promessa repetida a cada mandato político, em cada orçamento anual ou em cada pomposa apresentação em Excel, mesmo que mudem os números e os figurantes. O que se quer é que comece a produzir resultados imediatos. Porque quem enfrenta hoje o peso da prestação da casa não pode esperar pela estratégia habitacional da próxima década. Quem denuncia uma situação de assédio precisa de uma resposta efectiva e não de uma vã garantia de maior fiscalização. E quem convive com um problema ambiental que já devia ter sido resolvido não ganha nada com a confirmação de que existe um robusto programa para o eliminar.
A Madeira feita de gente tem capacidade para muito mais. Mas o potencial, por definição, é aquilo que ainda não se concretizou. Logo, transformá-lo em qualidade de vida implica menos complacência com os atrasos, maior exigência na execução e uma cultura de responsabilidade que não termine no anúncio nem se dilua quando chega o momento de apresentar resultados.
A questão essencial não é se temos capacidade para imaginar uma Região melhor. Em terra de alguns poetas e inúmeros lirismos, de múltiplas invejas e alguma lucidez, de vários palpites e certos preconceitos mais avisado será perceber se temos determinação para a construir com estratégia, começando por resolver problemas que se arrastam há décadas e para os quais continuam a faltar respostas.
Uma Região de excelência não é aquela que anuncia o futuro com euforia. É aquela que deixa de adiar o presente.