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Quando a Polícia não abandona e o Estado falha

Nos últimos dias, a tempestade Kristin atingiu duramente o território continental, com ventos fortes, chuva intensa e apagões generalizados, causando danos relevantes e afetando milhares de cidadãos. Desde o primeiro momento, a PSP esteve no terreno, assumindo um papel central na resposta de emergência, com especial incidência nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém.

Foram mobilizados todos os meios disponíveis para a proteção de pessoas e bens, o condicionamento do trânsito, a segurança de áreas evacuadas, o apoio às equipas de socorro e a prevenção de saques, furtos e roubos, bem como o alerta para tentativas de burla associadas a falsas campanhas de solidariedade.

Embora a dimensão do fenómeno não se compare à tragédia da Madeira a 20 de fevereiro de 2010, existe um paralelismo claro: a postura, a entrega e o sentido de missão demonstrados pelos profissionais da Polícia em ambos os contextos. Tanto em 2010 como agora, os polícias provaram que o compromisso com a população está acima de ordens formais ou falhas de coordenação. Em cenários de comunicações limitadas, danos estruturais e ausência de orientações claras, foram os próprios agentes que, por iniciativa própria, se colocaram no terreno, asseguraram acessos, apoiaram populações isoladas e intervieram em situações de risco elevado. Durante a tempestade Kristin, isto ficou evidente nos comandos de Leiria, Coimbra e Santarém, onde muitos polícias se deslocaram voluntariamente para zonas críticas, colaborando com bombeiros e serviços municipais, atuando em condições adversas e demonstrando coragem, discernimento e elevado sentido de serviço público, exatamente o mesmo espírito que marcou a resposta policial na Madeira em 2010, quando a urgência exigiu decisões rápidas, muitas vezes antes de qualquer despacho superior.

A conclusão é clara e incómoda para quem governa: não é a força da tempestade que define a eficácia do Estado, mas a dedicação de quem está na linha da frente. A decisão autónoma, a prontidão e o compromisso com a vida humana continuam a ser marcas centrais da Polícia, pilar da segurança interna e da proteção civil. Ficou também evidente a importância da articulação com bombeiros e restantes agentes, que mesmo em situações extremas conseguem minimizar impactos. O que falha, muitas vezes, não é o profissionalismo dos operacionais, mas a resposta política e o cumprimento das responsabilidades do Estado.Perante esta realidade, já chega de impasses do Governo em relação às polícias, em particular à ASPP.

Em julho de 2024 foi assinado um acordo para valorizar carreiras, corrigir injustiças e definir metas claras. O que se seguiu foram negociações arrastadas, adiamentos sucessivos e incumprimento das metas. Por esta falta de seriedade, em novembro de 2025 a ASPP decidiu abandonar as negociações, não por falta de vontade de dialogar, mas porque não se negoceia quando a outra parte não cumpre a palavra dada.

Os polícias não pedem favores: merecem e têm o direito à valorização das suas carreiras, e o Governo tem o dever legal, político e moral de cumprir o acordo que assinou em 2024. A tempestade Kristin voltou a demonstrar que os profissionais da Polícia nunca abandonam a população, mesmo quando o risco é elevado e o reconhecimento escasso. Em contraste, demasiadas vezes sentem que o Estado abandona aqueles que estão sempre presentes quando tudo falha. Este desequilíbrio não é aceitável numa democracia que se quer séria e responsável.

Apesar de lamentar profundamente o incumprimento do acordo e a postura do Governo, a ASPP mantém uma posição clara e responsável: estará disponível para regressar à mesa das negociações quando o Governo decidir cumprir aquilo que prometeu. O diálogo só faz sentido quando é sustentado por confiança, respeito institucional e compromissos efetivos.

Em suma, Kristin e o 20 de fevereiro de 2010 provam que, independentemente da magnitude do fenómeno, é a bravura, a iniciativa e o sentido de missão dos polícias que verdadeiramente protegem a população. Cabe agora ao Estado estar à altura desses profissionais, honrar os compromissos assumidos e demonstrar, com atos concretos, que respeita e valoriza quem nunca vira costas ao país.