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Análise

Prioridade: idosos!

A resposta à terceira idade tem de ser assumida como prioridade política absoluta

A polémica em torno da eventual venda do Hospital Dr. Nélio Mendonça trouxe para o centro do debate público uma questão que a Região não tem dado a merecida prioridade, apesar de muito se falar dela: a resposta estrutural, séria e planeada às necessidades da população idosa. Segundo notícia do DIÁRIO de 26 de Janeiro, o Governo Regional calculou que a adaptação do edifício a lar custaria mais de 107 milhões de euros. Um valor desta dimensão exige transparência e o estudo que o sustenta deve ser, por isso, tornado público, para não ficarmos apenas pela síntese do mesmo. Será, de facto, um hospital construído no início da década de 1970, concebido para cuidados diferenciados o espaço mais adequado para ser reconvertido numa estrutura residencial para a terceira idade? As dúvidas são legítimas e não podem ser ignoradas. Mas o essencial vai muito além de um edifício e da paixão política em torno do assunto. A Madeira enfrenta um Inverno demográfico evidente, com envelhecimento acelerado e quebra considerável da natalidade. Neste contexto, a existência de lares e estruturas de apoio à terceira idade é hoje tão premente quanto uma rede de creches abrangente. Ambas são faces da mesma realidade: uma população desequilibrada, que exige respostas públicas robustas nos extremos do ciclo de vida.

Os números são claros, preocupantes e conhecidos desde meados do ano passado. Mais de 1.300 pessoas aguardam actualmente uma vaga na rede de lares, enquanto cerca de outras 1.300 já se encontram institucionalizadas. Em Dezembro de 2025, existiam 40.852 pensionistas com pensão de velhice na Região, recebendo em média 753 euros mensais, um valor manifestamente insuficiente para recorrer ao sector privado, onde as mensalidades ultrapassam, em muito, o rendimento total do idoso. Sem uma resposta pública transversal, estas pessoas ficam dependentes da família ou presas a listas de espera intermináveis.

A pressão envolve, como sabemos, o sistema de saúde. O número das ‘altas problemáticas’ mantém-se estacionado acima das 200, uma enormidade de pessoas que já não necessitam de cuidados hospitalares, mas que não têm para onde ir. Não se trata, na maioria dos casos, de abandono familiar, como tantas vezes se sugere de forma simplista. Trata-se da ausência de respostas especializadas, de pessoas muitas vezes com necessidade de acompanhamento permanente, 24 horas por dia, algo que as famílias, por si só, não conseguem assegurar. Manter estes idosos em ambiente hospitalar é socialmente injusto, clinicamente inadequado e financeiramente insustentável. Ocupa camas, consome recursos e fragiliza um sistema já pressionado, quando a solução deveria passar por uma rede articulada de lares, unidades de cuidados continuados, residências assistidas e apoio domiciliário qualificado e duradouro. O que está em funcionamento é insuficiente.

A resposta à terceira idade tem de ser assumida como prioridade política absoluta. Exige planeamento, financiamento sustentável e uma visão integrada. Decisões avulsas, anúncios sem base técnica ou soluções improvisadas apenas adiam o problema e aumentam os custos futuros. A Madeira envelhece e continua a fazê-lo rapidamente. Ignorar esta realidade ou tratá-la com carinho, mas sem prioridade é falhar com milhares de cidadãos que trabalharam uma vida e têm direito a envelhecer com dignidade, apoio e segurança.

2. A segunda volta das eleições presidenciais realiza-se a 8 de Fevereiro. Contudo, já hoje exercem o seu direito de voto os doentes internados em estabelecimentos hospitalares, os reclusos não privados de direitos políticos e os eleitores que optaram pelo voto antecipado em mobilidade. Trata-se de um momento democrático relevante, que exige sentido de responsabilidade.

Convém, por isso, sublinhar um ponto elementar, mas frequentemente esquecido no ruído político: vota-se para Presidente da República, não para a Assembleia da República. Não está em causa a escolha do parlamento e de um Governo, que detém o poder executivo, mas sim a eleição do Chefe de Estado, Comandante Supremo das Forças Armadas, que representa o Estado português nas relações internacionais com funções próprias, constitucionalmente definidas.

Neste contexto torna-se particularmente caricato assistir, em alguns círculos políticos interesseiros da Região, ao início da especulação sobre quem será o próximo Representante da República na Madeira, um cargo para cinco anos (pelo menos) e que rende ao seu titular 65% do valor do vencimento do Presidente, mais 40% de ajudas de custo, para além de carro, residência oficial e gabinete de apoio. A escolha do Presidente não pode ser reduzida a cálculos de nomeações futuras, até porque essa é uma matéria acessória face às responsabilidades maiores do cargo e, sobretudo, às preocupações reais dos cidadãos.

Entre desafios sociais urgentes e momentos decisivos da democracia, o que se exige, agora, é foco no essencial: escolha eleitoral feita com plena consciência do que está, efectivamente, em causa.