O bom, o mau e o melhoral
A política oferece ironias que desafiam a razão. André Ventura foi o candidato mais votado nos círculos da emigração na 1.ª volta das eleições presidenciais. Haverá poucas vitórias eleitorais tão contraditórias como esta. Ventura, que assenta boa parte do seu discurso na diabolização da imigração, conquistou o voto da maioria da emigração portuguesa. A ironia resulta de uma ingenuidade. A maioria das pessoas não vota por sentido de justiça, mas por interesse próprio. Cada emigrante vê-se como exceção do problema inventado por Ventura. A empatia é pouca porque a ameaça vem sempre de quem está logo abaixo. Esquecem-se que primeiro são os outros. Mas, mais tarde ou mais cedo, chega sempre a todos.
O bom: António José Seguro
Seguro será, muito provavelmente, um dos políticos mais aborrecidos de que tenho memória. Não é especialmente dotado na retórica política, não goza de uma empatia assinalável e não se lhe conhecem virtudes oratórias capazes de entusiasmar multidões. A 8 de Fevereiro, não creio que qualquer uma dessas lacunas seja relevante. Especialmente quando, no mesmo boletim de voto, apenas figura André Ventura. Mais barulhento, mais popular, muito mais entusiasmante. O problema é que escolher o Presidente da República não é eleger um chefe de claque ou um líder de fação partidária. Ao Chefe de Estado, simultaneamente Comandante Supremo das Forças Armadas, importa ser moderado na intervenção, previsível no comportamento, coerente na palavra, conciliador na ação e impulsionador da unidade nacional e do projeto europeu. Seguro preenche todos estes requisitos mínimos, Ventura fez carreira a negá-los. Até do ponto de vista partidário, António José Seguro trilhou, nestas eleições, um caminho espinhoso que Ventura nunca sonhou passar no seu partido. Apesar do presidente do Chega ter tentado colá-lo ao PS, na verdade, Seguro candidatou-se, pelo menos inicialmente, contra o establishment socialista. Basta relembrar os epítetos que lhe dirigiu Augusto Santos Silva. E sem a bênção da esquerda ideológica, que não se coibiu de apresentar candidaturas próprias. Ao contrário de todos os outros candidatos, incluindo Ventura, Seguro agregou os votos da sua área política e ainda lhes juntou uma parte significativa do voto ao centro. Na segunda volta, voltará a provar que, em democracia, nem sempre a afinidade ideológica determina o sentido de voto. Seguro até pode ser uma escolha entediante, mas é, em todos os sentidos, a única possível.
O mau: André Ventura
Duvido que André Ventura queira ser Presidente da República. Obviamente, se o conseguir, não esbanjará a oportunidade, mas não creio que seja esse o caminho que imaginou para chegar ao poder. Dar-lhe-ia mais trabalho e não dispensaria umas eleições legislativas para capturar a maioria parlamentar. Essa é a primeira conclusão, Ventura candidatou-se (pela segunda vez) à Presidência da República, pela mesma razão que se candidatou uma vez às europeias, outra vez às autárquicas e quatro vezes às legislativas - apenas para ocupar o espaço mediático. Não é por acaso que, independentemente da eleição, o seu discurso seja sempre o mesmo. Curto, simplista e ruidoso. Mas engana-se quem reduz Ventura à retórica. A impunidade com que apontou um trio de Salazares para pôr Portugal a funcionar, é muito mais do que uma provocação. Ventura é o reflexo local de um tempo em que o autoritarismo deixou de envergonhar e passou a alternativa plausível. Talvez o verdadeiro problema não seja Ventura dizer as alarvidades que diz, mas o país ter chegado ao ponto de as ouvir e normalizar.
O melhoral: O voto em branco
Não faz bem, mas também não faz mal. De slogan de medicamento passou a piada de algibeira e, em 2026, transformou-se numa das desculpas favoritas para fugir à escolha na segunda volta das presidenciais. Só ultrapassada pela versão aprimorada, mas igualmente cómoda: não me revejo em nenhum candidato. Não é por acaso que a eleição presidencial se decide a duas voltas. Por sinal, em Portugal, a escolha do Presidente da República é a única que se faz a dois tempos. Primeiro elimina-se, depois escolhe-se. Primeiro separa-se o trigo do joio e depois aceita-se que, por vezes, o pão não é exatamente ao nosso gosto. A segunda volta não é um momento de participação facultativa ou uma prova de fidelidade ideológica. É um exercício de convergência política forçada. Percebe-se que assim seja. O Presidente da República é o único cargo unipessoal do nosso sistema político. É nele que assenta o último mecanismo de segurança do regime, na eventualidade do Governo e da Assembleia da República se desviarem do seu normal funcionamento. Esse tipo de poder, acrescido da capacidade de veto político e por inconstitucionalidade, exige uma legitimidade especial que advém do sufrágio direto e universal e, principalmente, da eleição do Presidente com mais de 50% dos votos, ou seja, da possibilidade de uma segunda volta. Refugiar-se na ignóbil equidistância do voto em branco é traçar uma linha de equivalência entre a democracia e o autoritarismo, entre o racismo e a igualdade, entre o ódio e a tolerância, entre a xenofobia e o respeito pela dignidade humana. Não há voto suficientemente branco que apague a renúncia à escolha entre uns e outros, nem neutralidade que absolva quem, podendo decidir, prefere o conforto de não se comprometer.