O mito do normal
O normal é, muitas vezes, apenas aquilo a que o cérebro já se habituou
Normal comparado com o quê?
Perguntam-nos desde cedo o que é normal. Dizem-no como se fosse um território objetivo bem delimitado habitado por pessoas ajustadas a emoções certas e reações aceitáveis. Mas quanto mais observo e estudo o ser humano mais claro se torna que o normal é uma construção frágil estatística e profundamente contextual.
Do ponto de vista da neurolinguística o “normal” não descreve a realidade descreve apenas um mapa. E os mapas não são o território. Cada pessoa organiza o mundo a partir da sua história, das suas experiências sensoriais, das suas crenças, dos seus valores e da linguagem que usa para dar sentido ao que vive.
Aquilo que alguém chama normal é na maioria das vezes apenas aquilo que lhe é familiar. O que é repetido torna-se confortável e o que é confortável começa a parecer normal. Talvez por isso eu discorde do cliché “faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti”. O outro não é o meu espelho. Tem outro sistema nervoso, outro mapa e outra história.
A neurociência ajuda-nos a compreender porquê. O cérebro humano é um órgão de previsão não de verdade. Procura padrões repete circuitos conhecidos e valida aquilo que confirma as suas expectativas. O que é repetido torna-se confortável. O que é confortável começa a parecer normal. Não porque seja melhor, mais saudável ou mais verdadeiro, mas porque é reconhecível. É assim que hábitos emocionais disfuncionais se tornam “normais”. É assim que relações marcadas por tensão constante são descritas como “normais”. É assim que viver em alerta permanente exausto e reativo passa a ser tratado como se fosse apenas a vida como ela é. O cérebro aprendeu aquele ritmo, ajustou-se a ele e passou a defendê-lo. É também por isso que muitas pessoas que exercem comportamentos abusivos têm dificuldade em reconhecê-los como tal. É por isso que tantos de nós adoecemos, em silêncio.
Na neurolinguística dizemos que todo o comportamento tem na sua origem uma intenção positiva mesmo quando o comportamento é indevido. O normal é muitas vezes apenas a melhor solução que o sistema nervoso encontrou num determinado momento para garantir sobrevivência pertença ou segurança. O problema surge quando confundimos adaptação com identidade e sobrevivência com plenitude.
A neurociência mostra-nos também que o cérebro é plástico. Muda com a experiência, com a atenção e com a intenção. Isto significa que o normal não é fixo. Aquilo que hoje parece inevitável pode com consciência e treino tornar-se apenas uma fase ultrapassada.
Mas há um preço a pagar. Pensar diferente exige energia. Questionar o normal exige pausa. Sair do automatismo exige maturidade emocional. É por isso que o normal é tão protegido socialmente. Quem o questiona ameaça equilíbrios frágeis expõe incoerências e obriga os outros a confrontarem-se com escolhas que preferem não rever. O normal dá descanso. A consciência dá trabalho.
A neurociência contemporânea demonstra que não há marcadores neurais fixos que separem cérebros “normais” de “anormais”. O que existem são configurações singulares de funcionamento que podem gerar necessidades de suporte diferentes em contextos diferentes. Portanto o problema não está no cérebro. Está nas barreiras pedagógicas sociais sensoriais comunicacionais e afetivas.
Quando insistimos em dividir as pessoas entre “típicas” e “atípicas” (normais e anormais) continuamos a tratar umas como o centro e outras como a margem. Quando reconhecemos que os cérebros funcionam de muitas formas diferentes, mudamos o foco: em vez de obrigar as pessoas a caber numa norma, passamos a questionar e transformar as normas que excluem. Isso não é apenas opinião. É coerente com o que hoje sabemos sobre neurodiversidade e plasticidade cerebral.
Do ponto de vista neurológico, crescer implica tolerar desconforto cognitivo. Do ponto de vista humano crescer implica deixar de usar o normal como critério moral.
Normal não é sinónimo de saudável. Frequente não é sinónimo de correto. Aceite não é sinónimo de consciente. A pergunta mais honesta não é “isto é normal?” mas “isto é coerente com quem quero ser com o impacto que gero e com a responsabilidade que assumo sobre a minha própria vida?”