Sindicato alerta que "farda não é para abusos" e diz que Madeira está a salvo do "barril de pólvora"
Comportamento do jovem agente natural do Porto Santo, de 21 anos, já levantava suspeitas internas antes da sua detenção. Foi transferido anteriormente da Esquadra do Martim Moniz para a do Rato, na sequência de alegados comportamentos indevidos no exercício de funções
Paulo Jardim, do Sindicato Independente de Agentes de Polícia (SIAP), reage à detenção do agente natural do Porto Santo – e explica porque é que, na Região, este cenário é altamente improvável. "Aqui, os novos não andam sozinhos".
A detenção de dois agentes da PSP da Esquadra do Rato, em Lisboa, acusados de crimes de tortura, violação e sequestro, abalou a confiança na instituição e levanta, desde logo, várias questões sobre o perfil dos agentes que têm vindo a ser recrutados para reforçar o efectivo policial.
Um caso que ganha contornos de proximidade com a Madeira, após a confirmação de que um desses polícias, de 21 anos, é natural da ilha do Porto Santo. Actualmente encontra-se detido, preventivamente, no Estabelecimento Prisional de Évora.
Agente da PSP natural do Porto Santo acusado de tortura e violação
Informação é avançada pela RTP Madeira
Em reacção à notícia que está a chocar o País, para Paulo Jardim, coordenador regional do Sindicato Independente de Agentes de Polícia (SIAP), a realidade madeirense funciona como um "travão" natural a estes comportamentos desviantes.
Em declarações à TSF-Madeira, o dirigente sindical traça uma distinção clara entre o "barril de pólvora" que se vive na capital portuguesa e a supervisão apertada que existe nas esquadras da Região.
É aqui que a realidade do arquipélago representa uma grande diferença. Segundo Paulo Jardim, a estrutura etária do efectivo regional acaba por funcionar como uma rede de segurança contra abusos de poder.
"Na Madeira temos uma média de idades já de uns 40 e tal anos. E os polícias novos, quando vêm para aqui, na maioria das vezes estão acompanhados por elementos mais velhos e os elementos mais velhos não se vão sujeitar a casos destes. Vão chamar a atenção do elemento mais novo", sublinha Paulo Jardim.
Humilhação, agressão e sodomização: agentes da PSP filmavam crimes e partilhavam com outros policias
São relatos chocantes de humilhações, agressões e até sodomização. Atos cometidos por agentes da PSP, de forma repetida, dentro de uma das principais esquadras de Lisboa, um local onde os cidadãos se deviam sentir seguros. Os crimes, incluindo a pessoas sem-abrigo, eram partilhados por mensagens entre alguns dos agentes. Dois deles estão já acusados pelo Ministério Público.
Em Lisboa - se houver uma escola [curso de formação] de 500 [polícias] - 300 ou 400 vão para Lisboa. E os mais velhos que já lá estão há 5, 6 ou 7 anos é que vão começando a ir para outros comandos. Acabam o curso com 18 ou 19 anos... mais tarde ou mais cedo é um barril de pólvora. Paulo Jardim, dirigente do Sindicato Independente dos Agentes de Polícia (SIAP)
Assim, segundo o dirigente sindical, na Madeira existe uma passagem de testemunho e uma vigilância constante por parte dos polícias mais experientes. "Aqui não acontece, por estarem acompanhados em 90% das vezes - ou mais - por elementos mais velhos".
Paulo Jardim explica que a experiência traz "aquela ronha, aquela manha" necessária para impor limites: "O colega mais velho diz logo: 'cuidado que isto não é assim, tu não podes fazer isto, porque vai dar problemas'."
PSP ordena retirada de sem-abrigo da entrada de lojas no Funchal
A Polícia de Segurança Pública (PSP) foi chamada a intervir, pelas 19h30 desta quinta-feira, na Rua Dr. Fernão de Ornelas, no Funchal, para afastar algumas pessoas em situação de sem-abrigo que se preparavam para pernoitar à porta de estabelecimentos comerciais
Apesar da salvaguarda regional, Paulo Jardim não esconde a preocupação com a "imagem manchada" da PSP e aponta falhas graves no recrutamento. Para o agente, os testes psicotécnicos actuais são demasiado permissivos e focam-se muito mais em "testes de português" do que na estabilidade emocional.
"Antigamente havia testes psicotécnicos de 500 perguntas, onde a mesma pergunta aparecia várias vezes [para testar a coerência]. Não sei se hoje conseguem escrutinar mesmo, não sei se têm alguma avaliação psicológica decente ou se é daqueles 'psicólogos de gaveta'", atira, criticando abertamente a redução da idade de entrada na força policial para os 18 anos, considerando que a maturidade dos 21 anos - antigo limite mínimo - oferecia outras garantias.
Ultimamente têm surgido casos cada vez mais chocantes e temos de nos perguntar de quem é a culpa. Antigamente entrávamos apenas com 21 anos, uma idade que se julgava já ser mais adequada. Dezoito anos é, se calhar, aquela idade em que acham que dá tudo certo. Até deixar de dar. Paulo Jardim, dirigente do Sindicato Independente dos Agentes de Polícia (SIAP)
Situação altamente reprovável
Paulo Jardim deixa um aviso severo às novas gerações que ingressam na PSP, alertando que o estatuto policial não garante impunidade e que "os segredos" acabam sempre por ser descobertos.
"A imagem vai ficar sempre manchada. A ser confirmado, é um facto altamente reprovável. E os jovens, hoje em dia, têm de ver que a polícia não são só aqueles (...) não podem usar a farda para fazer tudo o que lhes apetece, porque depois o tiro sai pela culatra. Mais tarde ou mais cedo, nada do que é feito nessas situações fica em segredo.
Ser polícia não é fazer essas coisas. É tentar ajudar o cidadão na melhor medida possível, não é fazer o contrário. Paulo Jardim, dirigente do Sindicato Independente dos Agentes de Polícia (SIAP)
Entretanto, começam a surgir detalhes que indicam que o comportamento do jovem agente natural do Porto Santo, de 21 anos, já levantava suspeitas internas antes da sua detenção.
Segundo informações apuradas, o porto-santense já teria sido transferido anteriormente da Esquadra do Martim Moniz para a do Rato, na sequência de alegados comportamentos indevidos no exercício de funções. O caso tem ganho ainda maior falatório na Ilha Dourada, dado que o detido conta com, pelo menos, um familiar a prestar serviço activo no Comando Regional da PSP da Madeira.