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A bactéria que viaja nas mãos mal lavadas

A bactéria aloja-se no estômago e destrói o revestimento protector.
A bactéria aloja-se no estômago e destrói o revestimento protector., Foto Shutterstock

A estimativa é de que cerca de 60 a 70% da população adulta em Portugal esteja infectada com a Helicobacter pylori uma bactéria que infecta e habita o estômago, referem o Hospital da CUF e Lusíadas Saúde, uma percentagem importante, considerando que um estudo agora divulgado conduzido por uma equipa de peritos da Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro, da Organização Mundial da Saúde (OMS), estima que 76% dos casos dos 15,6 milhões de pessoas no mundo que poderão ter cancro gástrico em algum momento da vida será provocado por esta bactéria. Mas o que é esta H. pylori ou Hp, como também é designada?

A bactéria que se instala no trato digestivo o provoca infecções no estômago ou no duodeno é das infecções mais comuns no mundo, é geralmente adquirida na infância. Passa entre indivíduos através da saliva ou das fezes ou através da ingestão de água ou alimentos contaminados. Após a contaminação, a bactéria coloniza a mucosa do estômago, onde vai atacar o revestimento protector que é o responsável por produzir uma enzima que ajuda a reduzir a acidez gástrica. Com esta defesa reduzida, o estômago fica mais vulnerável a lesões e infeccões.

A maior parte das pessoas, mesmo tendo a bactéria, não apresenta sintomas e assim permanece ao longo do tempo. Noutras, em cerca de 20%, a bactéria leva a queixas e está na origem de úlceras duodenais, gástricas e a gastrites crónicas. Numa percentagem muito pequena está associada ao aparecimento de tumores.

Para Portugal, segundo o estudo recente realizado para OMS, se não forem alteradas medidas de controlo, as estimativas realizadas apontam para 24.725 casos, entre as 928.484 pessoas em risco, com 18.578 dos casos a serem desencadeados por infecções pela referida bactéria, são 2,7% das pessoas que vão desenvolver este tipo de cancro e destas 75% devido a este organismo.

Há várias formas de saber se tem a bactéria. Pode ser através de uma análise de sangue, um teste respiratório, um teste às fezes e a partir de uma endoscopia e biopsia gástrica, quer para um teste ou uma análise microscópica. A escolha do método depende da situação clínica do doente, da disponibilidade dos métodos de diagnóstico e da suspeita de possíveis complicações. Depois de identificada, a bactéria deve ser erradicada, embora haja casos em que o tratamento possa não ser prioritário. A erradicação da bactéria é difícil, obriga à combinação de medicamentos, nomeadamente de vários antibióticos, de medicamentos para reduzir a produção de ácido e proteger a mucosa do estômago. O médico gastroenterologista escolherá o melhor para cada doente.

A maioria das pessoas infectadas não desenvolve complicações graves, mas devido ao risco de problemas a longo prazo, o diagnóstico e tratamento precoces da infecção são fundamentais. São factores que aumentam o risco o viver em países em desenvolvimento, o viver em condições de sobrelotação ou grande concentração populacional, a falta de acesso a fontes de água limpa, o consumir alimentos mal lavados, crus ou cozinhados em locais com poucas condições de higiene, ter historial familiar de cancro no estômago e ter mais de 50 anos.

Não existe uma vacina eficaz contra a H. pylori nem recomendações para evitar a infecção, para além das gerais de lavar as mãos depois de utilizar a casa de banho e antes de comer, assim como lavar bem os alimentos e beber água potável.