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Fact Check Madeira

Será que o lobo-marinho sempre foi uma espécie acarinhada pelos madeirenses?

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FOTO GONÇALO GOMES, PUBLICADA PELO MUSEU DE FOTOGRAFIA DA MADEIRA

Na última semana, foi notícia o nascimento de quatro lobos-marinhos nas ilhas Desertas. A propósito dessa notícia, Manuel Filipe, presidente do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza - IFCN, na rubrica Inesquecível, da edição impressa do DIÁRIO, afirma que, “hoje, o lobo-marinho é a espécie mais acarinhada pelos madeirenses”. Mas será que sempre foi assim?

Para termos uma ideia de como os madeirenses viram a espécie ao longo da história, não precisámos de recuar muito. Mas é conveniente lembrar o início.

Logo no século XV, com a chegada dos descobridores, a vida começou a “correr mal” para a foca monge (Monachus monachus), Lobo-marinho. “Aqui (actual baía de Câmara de Lobos) se meteram com os batéis e acharam tantos lobos-marinhos que era espanto; e não foi pequeno refresco e passatempo para a gente; porque mataram muitos deles e tiveram na matança muito prazer e festa.” A descrição por Gaspar Frutuoso terá tido como fonte o cronista João de Barros.

No entanto, não se tratou de um episódio isolado. O animal continuou a ser alvo de caçada e acabou por se refugiar nas Desertas, para escapar a essa mortandade. Mas, nem aí ficou a salvo.

Uma leitura a várias notícias, publicadas pelo DIÁRIO, ao longo do século XX, permite ter uma ideia de como era visto o Lobo-marinho pelos madeirenses.

 “Matou com uma pedrada”

Um dos primeiros textos que encontrámos foi na edição de 17 de Novembro de 1905.

“Um criado do Sr. João Franco de Castro matou anteontem com uma pedrada um pequeno lobo-marinho, que andava por fora do Lazareto de Gonçalo Ayres.”

No dia 10 de Fevereiro de 1907, outra notícia de um lobo apanhado. “O lobo-marinho que foi apanhado, nas Desertas, estará hoje em exposição no armazém cabrestante à rua da Praia.”

Menos de um mês depois, a 3 de Maio, outra notícia. “Ontem de tarde foi apanhada por uns homens de Machico, na respectiva vila, uma grande foca (lobo marinho).”

A 30 de Julho de 1912, era dada notícia da presença na Madeira do príncipe do Mónaco, com o seu iate Hirondelle. Depois de falar na sessão de cumprimentos, dizia: “O Hirondelle partiu ontem à noite para as ilhas Desertas, conduzido, além do seu proprietário, o Sr. Carlos J. Cossart. Vão ver se conseguem colher um lobo-marinho”.

No dia 24 de Janeiro de 1933 era contada mais uma história.

Era dito que António Pão, natural de Machico, havia apanhado no domingo anterior um lobo-marinho, nas Desertas. O animal havia ficado preso num anzol, teria 1,5 metros e foi levado a reboque para Machico.

“Naquela freguesia foi o lobo adquirido pelo Sr. Guilherme Madeira, estabelecido no Campo do Almirante Reis, que o trouxe para o Funchal, onde esteve ontem em exposição”.

“À tarde, como notassem que o animal estava necessitando de um banho, deitaram-no ao mar, amarrado a uma corda”.

“Apesar de todas as precauções, o lobo conseguiu libertar-se do laço. E assim, o mar, que o havia dado, o levou…”

Em 1938, a 16 de Janeiro, era noticiado que, numa das noites anteriores, “quando um grupo de pescadores procedia à pesca com rede, em frente ao Caniçal, apanhou um lobo de mar com cerca de 90 quilos”.

Em 1941, no dia 11 de Maio, outra notícia demonstra como o animal era visto e tratado pelos madeirenses. “Diversos pescadores, naturais do Caniçal, apanharam, anteontem, um lobo-marinho, com cerca de um metro, numa furna existente nas Desertas, aproveitando a ocasião em que estava a dormir.”

“Os referidos pescadores trouxeram o lobo, vivo, para o Funchal, tendo sido bastante admirado por numerosas pessoas.”

Sem medo das pessoas

De meados do século XX em diante, as notícias sobre capturas de lobos-marinhos praticamente desaparecem dos jornais, o que indicia a sua quebra populacional.

Além de ser muito procurado, pela pele e pelo óleo, o animal tinha características comportamentais que o prejudicavam. Tinham pouco ou nenhum medo dos humanos.

No dia 5 de Março de 1926, era noticiado que o lobo-marinho, avisado junto à Pontinha, no dia 2 do mesmo mês, voltara a aparecer.

“Anteontem, cerca das 7 horas da tarde, tornou a aparecer junto de diversas pessoas, que se entretinham a pescar sobre os blocos do quebra-mar do molhe da Pontinha, o lobo-marinho de enormes dimensões (…). Desta vez, passou a cerca de sete metros de distância dessas pessoas, que, logo que viram o monstro, fizeram certo alarido de espanto e de curiosidade. O anfíbio ia ao lume de água e ouvindo o rumor dos pescadores, levantou a cabeça como que a perscrutar o que se passava, não se atemorizando com a presença de tanta gente. Seguiu o seu caminho muito vagarosamente e profundou quando já ia a uns 40 metros de distância.”

100 mil postais a pedir conservação

Nos anos da década de 1980, o lobo-marinho esteve quase extinto.

Calcula-se que, em 1988, como hoje explica Manuel Filipe, no DIÁRIO, houvesse oito indivíduos.

Antes disso, a consciência de que se estava quase a perder para sempre uma espécie, havia chegado e pessoas como Henrique Costa Neves, Manuel Biscoito ou Raimundo Quintal alertavam para a necessidade de preservar o animal.

A 16 de Março de 1993, o jornalista Luís Calisto noticiava: “Praga de postais na Quinta Vigia jaz agora no Museu da Baleia”.

No texto era explicado que, no Verão de 1985, a residência oficial do presidente do Governo, havia sido invadida por postais. “Os cartões vinham aos montes, com selos e carimbos de todo o mundo. O chefe do Governo viu-se e desejou-se para dar-lhes destino. Ao todo, somaram 100 mil. Depois de muitas voltas, eles foram bater, no mês passado, ao Museu da Baleia, Caniçal. Oito anos depois de expedidos, jazem em paz, encaixotados.”

“A correspondência chegava da Alemanha, França, Argentina, Estados Unidos da América, Itália, Grécia e demais países com organizações ecologistas. Tratava-se de um pedido ao Governo Regional: protecção à Zona Econ6mica das 200 milhas, para salvar as escassas baleias e focas. Sobretudo, evitar a extinção dos lobos-marinhos, então não mais de meia-dúzia em águas madeirenses. Hoje, a colónia desses brincalhões Monachus monachus, composta por cerca de 15 indivíduos, dispõe da sua área de protecção especial, nas Desertas. O que fica a dever, em parte, à ‘praga dos 100 mil postais’ de 1985.”

No mesmo texto, Luís Calisto referia que Luís Dantas, chefe de Gabinete de Alberto João Jardim, recusava terem as iniciativas de protecção, então iniciadas, resultado da pressão internacional. Mas a verdade é que, no ano seguinte (1986), uma notícia sobre a audição aos pescadores de Caniçal, Machico, Água de Pena e Santa Cruz, sobre a criação da reserva natural das Desertas, dizia que “a proposta de Decreto Legislativo Regional (…) foi aprovada em plenário do Governo Regional em Junho do ano passado (1985)”.

Daí em diante, o processo de protecção não mais parou e, no início dos anos de 1990 começou a ficar consolidado.

Desde logo, nesse ano, os lobos-marinhos passaram a fazer parte do Brazão da Região, depois de aprovado pelo Governo Regional a 19 de Junho e remetido ao Parlamento madeirense. “A utilização dos Lobos-marinhos vivos e de sua cor, simboliza a homenagem da Região aos únicos grandes mamíferos encontrados quando da chegada dos primeiros povoadores. Esta homenagem integra-se no esforço geral desenvolvido para a preservação ecológica”, justificava o Governo na sua proposta.

A conservação da colónia de lobos-marinhos dispôs de financiamento comunitário e entrou na agenda política e social. Foram feitas muitas campanhas de sensibilização, organizadas conferências locais e internacionais e visitas de estudo às Desertas, por escolas, escoteiros e desenvolvidas políticas de apoio aos pescadores, que, inicialmente se opunham às medidas de protecção. Em 1996, a Porto Santo Line deu o nome Lobo Marinho ao ferry para ligação entre a Madeira e o Porto Santo.

Em 1995, o DIÁRIO publicou um trabalho sobre a vida de mar do mestre José da Gama, que havia trabalhado 27 anos no rebocador Ponta do Garajau, que ajuda a perceber a resistência dos pescadores.

Natural do Caniço recordava ter-se iniciado na faina aos 15 anos, levado pelo pai, que era pescador. Iam pescar às Desertas num barco a remos e regressavam aos Reis Magos.

“Pescar nas Desertas ocupou quase toda a juventude de José da Gama. Numa altura em que a praia dos Reis Magos era porto de pescadores. De peixe fino, cavalas, chicharro, baleias e... Lobos-marinhos. O velho pescador lembra-se, sobretudo, de encontrar muitos lobos-marinhos. ‘Na altura havia quem matasse cinco, seis por dia’, recorda. O propósito da matança era conhecido. O óleo e a pele eram muito valiosos. No seu caso ‘andava às cavalas’ pelo que não se recorda de alguma vez ter matado um lobo-marinho.”

Assim, não se pode dizer que os madeirenses sempre acarinharam a espécie Lobo-marinho (Monachus monachus), pelo menos na acepção actual de acarinhamento. No entanto, a afirmação do presidente do IFCN é verdadeira, pelo facto de ter limitado a sua apreciação à actualidade, “hoje”, e, aqui não valorizarmos o excesso de linguagem, resultante de um eventual entusiasmo com os resultados do programa de conservação, ao referir ser “a mais”, pois pode haver outra.

Hoje, o lobo-marinho é a espécie mais acarinhada pelos madeirenses” – Manuel Filipe